Se tivesse passado pelo planalto central, Calvino teria incluído Brasília em seu livro Cidades Invisíveis.
Como Anastácia, Ercília, Eudóxia, Teodora, Zenóbia, Berenice e demais cidades tão bem descritas por Marco Polo a Kublai Khan, Brasília tem nome de mulher. Uma mulher bela, fria, imponente no meio do cerrado, que atrai viajantes de todo território.
É a cidade das vaidades e da corrupção.
Por suas ruas anda seu morador principal, o Poder, atento às bajulações gerais, cercado por uma Corte encarregada de esconder a miséria ao redor. Os que ali chegam, ficam logo deslumbrados com a recepção dos interesseiros de plantão. Logo são envolvidos por uma teia de adulações que os faz acreditar que são escolhidos, especiais, que estão acima das leis e da moral.
Brasília é também a cidade dos favores, do jeitinho, das influências. Tudo se consegue dependendo dos relacionamentos que se formam.
À noite, a escuridão da cidade se torna cúmplice dos grupos que aspiram mais Poder ou simplesmente viver às custas do morador oficial. Pelos cantos, ouvem-se as vozes dos que criam boatos, armam jogadas escusas, preparam golpes, embaladas pelas risadas e músicas das festas, que divertem os moradores recém chegados à cidade.
Quem chega a Brasília dificilmente quer deixá-la. O mundo de fantasias atrai a mediocridade individualista, os Egos fáceis de serem inflados, as mentes corrompidas pelo prazer aparente proporcionado pelo Poder.
Alguns, de tempos em tempos, são expulsos da cidade por atos que extrapolam as regras da Corte, onde a ordem é manter as aparências de que o Poder funciona pelo bem estar geral. Servem de bode expiatório para não escandalizar moradores do território subordinado a Brasília. Em substituição a esses que caem em desgraça, novos viajantes chegam afoitos, trazendo nos rostos as expectativas da temporada na cidade desejada...
E a farsa continua.

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