domingo, 20 de dezembro de 2009

Perda III

um amargo lembrando a jiló
espalha-se por minha boca
na falta das palavras doces
que saiam de meus lábios
na ilusão do amor

secura na lingua
 mágoa no olhar
 tristeza na mente

cada um pro seu lado
cada qual pra seu canto
driblando o pranto
na mudez total
do silêncio do adeus.

ilustrção: Munch

Classificados III


 Troca-se uma sensação de vazio por uma ilusão qualquer de amor.

ilustração: Munch

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Ponte aérea Rio-SP


Tu tens a praia
fico com a praça
pisas na areia
ando no asfalto
olhas o azul
as nuvens que passam
meu céu  é cinza
só névoa e neblina
o mar te envolve
o verde se espalha
o concreto sufoca
a poluição me invade




tua beleza se exibe
a minha é tímida
esbanjas natureza
sou toda construída
em teus  morros há morte
morre-se aqui
na periferia

sábado, 12 de dezembro de 2009

Para HP

Tenho um amigo
entre tantos
com o coração de menino
e a alma feita toda
de encanto

Tenho um amigo
 há anos
com o peito repleto de afeto
 e o hábito estranho
de ser por inteiro

Tenho um amigo
antigo
artista ou mago de fato
que sabe fazer de amar
 um verbo 
mais que perfeito

Tenho um amigo
ausente
com asas nos dedos
para mandar em palavras
o afago
que não mereço

Tenho um amigo
que amo
de tal forma e tanto
  que mesmo à distância
é impossível
não vê-lo tão verdadeiro


ilustração: Marc Chagall

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Desde sempre tua


Preciso descobrir
Em que desvão do corpo
Escondi tua marca
Para remove-la aos poucos
Apagando os traços
Dessa vontade insana
De ser tua serva
Sempre e onde for

Preciso descobrir
Em que lugar da mente
Guardei teu poder
Para livrar-me dele
E seguir sozinha
Desfazendo a teia
Do impossível amor
Que queria ter

Preciso descobrir
Em que lugar do mundo
Deixei os meus sonhos
Para buscá-los todos
Fazer um mutirão
Para espantar a dor
Que teu desprezo ímpar
Em mim provocou

Preciso descobrir
Em que lugar do peito
Perdi a vontade
Para lutar de vez
Contra esse desejo
Incontrolado e insano
De em ti me perder

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Natal

é natal

uma bruma branca
neve de nuvens
esconde o azul
do meu mundo tropical

vestido de vermelho
o coração sangra
chora o papai noel
que ficou para trás

e as três estrelas guias
se apagam
na lágrima que cai

mas é natal

ao longe
o choro da criança
reafirma a teimosia
da vida

ilustração: Klimt

sábado, 5 de dezembro de 2009

O namorado e Eça de Queirós

Olhava o mar imenso e a lembrança foi chegando como uma onda em sua mente, trazendo os olhos do menino quase perdido em seu passado.
Com um sorriso nos lábios deixou a memória ir para o tempo em que mar para ela era aquele olhar verde, profundo, que parecia conter toda a verdade do mundo. Nele, navegava por instantes quando se cruzavam nas ruas, quando ele passava pela calçada de sua casa e a olhava timidamente como a contar-lhe um segredo.
Pensando agora, sabia que era o segredo da descoberta do amor, do encantamento de olhares furtivos trocados de forma inocente, prenunciando o gozo entre um homem e uma mulher.
Perguntava-se se ali havia começado essa sua mania de se encantar pelos olhares de homens pela vida afora, fascinada pelos que lhe pareciam ir além do que viam.
O menino tinha uma namorada. Bonita, moça de família como se dizia na época,  o namoro parecia seguir o rumo natural dos casais da cidadezinha que terminavam em véu e grinalda, filhos, vida parada do interior seguindo seu curso lento. Não eram amigas. A namorada sempre a olhava desconfiada parecendo dizer que sabia do segredo entre os dois.
Seria a tão famosa intuição feminina,  alardeada como característica feminina?
E o tempo passava...
Foi estudar na cidade grande, já não se interessava pelas férias em casa, que mais lhe pareciam uma punição. Sentia falta dos colegas da faculdade, das aulas, das discussões políticas, das greves, das reuniões em bares para mudar o mundo, sempre acompanhadas por violões e cantorias. Para ela, aquelas pessoas interioranas, alienadas, eram incapazes de compreender o verdadeiro significado da vida. Recusava-se a fazer os programas da antiga turma, agregando-se a um pequeno grupo que pensava como ela. 
Lembrava-se, rindo muito agora, de um carnaval em que ficaram, eram cinco amigos, a noite toda no bar da rodoviária em frente ao clube, sentados nas mesinhas toscas com os bêbados da cidade até o amanhecer pelo prazer da transgredir a moral e os bons costumes da família tradicional interiorana. Tão jovens, tanto ainda para aprender da vida, e já se achavam os donos do mundo!
Apesar da relutância em conviver com quem achava provinciano, fazia uma exceção.
Á tarde, sentada no alpendre com a avó velhinha, que tanto gostava, aguardava o mergulho no verde daquele olhar. Ele passava e, por segundos, não sabia explicar o que sentia, apenas uma sensação de prazer a percorrendo toda.
Noite de baile pré-carnavalesco, a irmã mais nova só poderia ir se ela fosse. Aprontou-se de forma displicente, sem vontade, apenas para fazê-la feliz, torcendo para que um dos amigos estivesse lá, assim o tempo passaria mais rápido. Ainda bem que era a última semana de férias, queria ir embora logo para sua nova vida.
Pensava agora nos conterrâneos da sua época, alguns tinham ficado por lá mesmo, outros se aventuraram por outros cantos da região, do estado, do país, do mundo. Ela se tornara, talvez, a provinciana para aqueles que tinham se tornado cidadãos do mundo... Quantas voltas na vida!
Ele veio em sua direção como um leopardo. Sempre a imagem dele surgia em sua mente como a de um felino. Talvez por ser quieto, ter um andar lento ou pelo olhar que lembrava um bicho à espreita.
Dançaram a noite toda quase sem se falarem. Os corpos unidos, as coxas entrelaçadas, o toque das mãos formavam palavras, o roçar das faces,  linguagem. De madrugada, já eram namorados.
A semana voou. Muitas conversas e risadas sobre o desejo contido da adolescência, os ciúmes sem causa aparente da ex- namorada, os planos de cada um para suas vidas, o que fariam com a separação do período de aulas.
Longe, trocaram algumas cartas, saudades ao telefone, ela esperava as férias um pouco ansiosa para saber realmente como seria a continuidade do encontro.
Julho.
Começaram a fazer os programas tradicionais dos namorados da pequena cidade. Cinema, piscina, festas, clube. Clube, festas, piscina, cinema. Ele era quieto. Não gostava de política, não sabia de Marx,Trotsky, Lênin.  Pensava seriamente em deixar a faculdade para tomar conta da fazenda do pai. MPB, Chico e Elis, não estavam em seu repertório musical. Mudar o mundo, diminuir as desigualdades sociais, não, para ele era o destino de cada um, assim era e assim seria o mundo, amem.
Uma noite, sentados num banco da praça, ela havia retirado um livro da biblioteca do clube,   começaram a falar de literatura. O assunto foi parar em Eça de Queirós. Ele não fazia idéia de quem era e ria dizendo que também não tinha o menor interesse em saber.Não gostava de ler.
Naquele momento algo dentro dela se rompeu e o verde daquele olhar se transformou, de repente, em um oceano de distância entre eles. Sentiu-se em uma ilha, despediu-se do mar.
Hora de ir embora, hora de adeus.
Soltou uma risada ao lembrar-se da raiva que sentiu por ele não estar nem aí com o  Eça,  por não valorizar   as letras que ela amava e que faziam sua imaginação ser tão maior do que  seu pequeno mundo. Foi sua primeira opção pela literatura.
Em seu túmulo, o velho escritor deve ter dado boas gargalhadas.
Cupido às avessas, se não fosse por ele, talvez em vez do vagar à beira mar, poderia estar percorrendo o verde de canaviais, ou cuidando de repolhos e chuchus.
Será que seria mais feliz?

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Saudade

e sem mais nem menos
como quem não quer nada
ela chegou
parecia uma onda maior de calor
um raio mais forte de sol
quando tocou em meu corpo
feito um espinho fincado
um caco de vidro pisado
uma picada de inseto
que minha pele esquentou
só quando em minha mente a imagem
quase sorrindo me olhou
percebi
que era  saudade
a danada que em mim
entrou.

Visita

permito à tristeza uma visita
uma só
 tua lembrança chega
se aninha em meus braços
 pede afago
sem dizer nada
dorme em paz

debruço-me sobre ela
olho o sorriso brando
quase esquecido
sussurro palavras doces
antes ditas
espero paciente
que acorde
 e depois se vá.

o silêncio da partida me faz chorar.

ilustração: Salvador Dalí

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Vida


Um fio conduz meus passos
E por ele sigo
Tento o equilíbrio
Teimo e vivo
É um fio de arame
E nele penduro
Os fantasmas dos sonhos
Inúteis/ inventados
Rasgados e perdidos
É um fio escorregadio
Desenrolado
Pouco a pouco
Ao sabor do acaso
Do desejo
Das paixões e de meu desvario
É de arame farpado
Esse fio existente
Em que me agarro
Empedernida
Triste ou alegre
De qualquer forma
A minha vida.