domingo, 16 de setembro de 2012

Noite de domingo

Que tristeza é essa
de fundo de poço
de botequim de quinta
filosofia barata
que em mim colou?

O que fazer com esse peito
em pranto
se  nicotina não basta
alcool não chega
para preencher esse vazio
em que se instalou a dor?

E esse fantasma
 assombrando a mente
 em que brilham os cacos
desse amor opaco
que em mim restou

Nem mesmo a lua
surgiu à janela
para atenuar o pranto
desse desamor.









(ilustração - Magritte)



Ouvindo Piazzolla

O (re)despertar do amor
dói.

Não posso
acordar sentimentos
deixá-los soltos por aí.

Sem destinatário
são presas fáceis
de palavras vãs
que os destroem sem pudor.

Guardá-los em mim
tão frágeis
Não posso.

Desatinam
entrelaçam-se em nós
na garganta
soltam lavas-lágrimas
no olhar.

No domingo envelhecido
Piazzolla chora comigo

e meu  amor (re)nascido
ecoa... 
"Quereme así, piantao, piantao, piantao..."

(Ilustração: Munch)


domingo, 9 de setembro de 2012

O baterista

O bar ainda estava vazio quando chegamos.
No palco, o casal  de músicos que gosto. Ela com sua voz melodiosa, ele,dedilhando o violão, sintonia perfeita.
O baterista, não conheço. Observo curiosa.
A expressão do homem é dura. Algumas rugas na face, nenhum sorriso nos lábios, seus músculos faciais estão imóveis. Lembra os músicos experientes da noite, acostumados com o burburinho, meio indiferentes à plateia. Deve ser dos bons, penso.
Volto-me para suas mãos. Por que me sinto fascinada por elas? São imãs, atraindo meu olhar. Mãos de músicos parecem independentes do corpo, movimentam-se por seus instrumentos tirando deles a essência do som. Passeiam pela melodia da mesma forma como devem passear à beira-mar, sentindo a brisa no rosto. Enfeitiçam-me.
As do baterista desconhecido guiam as baquetas, seguram o ritmo, ganham força, incendeiam o som. Pouco a pouco, suavemente, acompanham as notas, acariciam as caixas, acordam os pratos, murmuram uma canção de amor.
Por alguns momentos, vislumbro apenas o profissional da noite, a facilidade do ir e vir dos movimentos,  quase mecânicos, e um leve ar de tédio na face Em que pensará o baterista, enquanto suas mãos tocam e vão contando das noites, dos bares, dos palcos e bailes, marcando o compasso da dança de tantos encontros e desencontros da vida?
Seu olhar é soturno, gelado. Vaga pelo espaço e se detem no meu.  Perscuta, inquire, aprofunda e me invade. Faz um contraponto silencioso à bateria que domina.
Há algo inquietante nele, algo que me prende e afasta. Fecho os olhos e o som das baquetas é igual ao pulsar das minhas veias. Intenso. Deixo escorrer a música por meu corpo e, por um instante, fujo para o infinito, único lugar em que a música se torna extensão daquele olhar. Vivo aquele momento antes do retorno à realidade, à conversa com os amigos, às brincadeiras, e ao sorriso solto aos conhecidos.
Peço uma bebida ao garçom e viro uma mera frequentadora do bar.
Ao longe, ouço um baterista desconhecido a me tocar.

 







 





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