Lendo sobre a exposição de Jorge Amado no Museu da Língua Portuguesa, fiquei pensando a importância que o escritor baiano teve na minha adolescência, em uma época sem televisão, na pequena cidade do interior paulista, em que o tédio das noites tranquilas se fazia presente e era substituído pelas viagens que fazia lendo seus livros.
E pensando nisso, é nítido o papel que teve o Jeromão em minha vida. Jeromão era professor de português, responsável pela formação da biblioteca do ginásio e por me abrir as portas da literatura brasileira.
Até então, meus hábitos de leitura, com exceção de Monteiro Lobato, cujos livros papai já comprara toda a coleção para os filhos lerem, minha atenção era voltada para os livros de literatura estrangeira, capa preta, da biblioteca do Grêmio, a velha biblioteca do clube, mobiliada de forma austera, como devia ser uma biblioteca, as estantes altas, cheias de livros que eu ia escolhendo meio aleatoriamente, de autores ingleses, franceses e russos. Livros pesados, que me despertavam uma certa angústia ao ler, Sumerset Maugham, Flaubert, Tennesse Williams, ou acordavam a curiosidade da investigação de crimes com Agatha Christie ou as aventuras de Sherlock Holmes.É dessa época também a minha falta de interesse pela literatura russa. Talvez o fato de ser muito jovem para adentrar no mundo de Dostoiewski me tenha criado uma resistência nunca rompida, infelizmente, pelos grandes autores russos.
Já a biblioteca do ginásio era clara, cheia de luz e ver aqueles livros chegando, as prateleiras lotando, era algo como uma nova luz a meu olhar voraz de leitora. Passei a povoar a mente com o novo universo que descobria passo a passo.
Fui apresentada a Graciliano Ramos, Jose Lins do Rego e Jorge Amado. Eram meus preferidos. Lia, lia, lia... Vidas Secas, Angústia, Menino de Engenho, Jubiabá, Suor, Terras do sem fim, tudo me encantava naquela descoberta de um Brasil novo, aprendendo ali a gostar do povo brasileiro, sementes lançadas sem eu saber, germinando na minha cabeça até florescerem em pensamentos contrários a poderosos e uma noção vaga de que deveria lutar por um mundo menos desigual. Talvez, Jorge Amado tenha sido, mais do que os outros, o responsável também pela minha parte festeira, alegre, cantante.
Só alguns anos depois, já longe de Igarapava, percorreria outros caminhos da literatura, mas o tripé, a base, o estímulo a leitura foi formado ali: casa -clube - ginásio.