terça-feira, 24 de abril de 2012

de desertos...

Em meu deserto afetivo
há um vulto distante
que mais parece miragem
ao sol a pino do dia
ou em noites de mil estrelas
com o luar a espiar

Em meu deserto afetivo
tempestades de areia
enfrento
sigo por dunas profundas
desfaleço
pés descalços dormentes
levanto
sentindo no rosto o talho
que o vento cortante me traz

Em meu deserto afetivo
sempre a figura de um homem
me força a andar
acena tranquilo ao longe
com seu oásis  de águas claras
e palmeiras verdes
onde me aguardará.

domingo, 15 de abril de 2012

Diário de Leituras - a origem

Lendo sobre a exposição de Jorge Amado no Museu da Língua Portuguesa, fiquei pensando a importância que o escritor baiano teve na minha adolescência, em uma época sem televisão, na pequena cidade do interior paulista, em que o tédio das noites tranquilas se fazia presente e era substituído pelas viagens que fazia lendo seus livros.
 E pensando nisso, é nítido o papel que teve o Jeromão em minha vida. Jeromão  era professor de português, responsável pela formação da biblioteca do ginásio e por me abrir as portas da literatura brasileira.
Até então, meus hábitos de leitura, com exceção de Monteiro Lobato, cujos livros papai já comprara  toda a coleção para os filhos lerem, minha atenção era voltada para os livros de literatura estrangeira, capa preta, da biblioteca do Grêmio, a velha biblioteca do clube, mobiliada de forma austera, como devia ser uma biblioteca, as estantes altas, cheias de livros que eu ia escolhendo meio aleatoriamente, de autores ingleses, franceses e russos. Livros pesados, que me despertavam uma certa angústia ao ler, Sumerset Maugham, Flaubert, Tennesse Williams, ou acordavam a curiosidade da investigação de crimes com Agatha Christie ou as aventuras de Sherlock Holmes.É dessa época também a minha falta de interesse pela literatura russa. Talvez o fato de ser muito jovem para adentrar no mundo de Dostoiewski me tenha criado uma resistência nunca rompida, infelizmente, pelos grandes autores russos.
 Já a biblioteca do ginásio era clara, cheia de luz e ver aqueles livros chegando, as prateleiras lotando, era algo como uma nova luz a meu olhar voraz de leitora. Passei a povoar a mente com o novo universo que descobria passo a passo.
Fui apresentada a Graciliano Ramos, Jose Lins do Rego e Jorge Amado. Eram meus preferidos. Lia, lia, lia... Vidas Secas, Angústia, Menino de Engenho, Jubiabá, Suor, Terras do sem fim, tudo me encantava naquela descoberta de um Brasil novo, aprendendo ali a gostar do povo brasileiro, sementes lançadas sem eu saber, germinando na minha cabeça até florescerem em pensamentos contrários a poderosos e uma noção vaga de que deveria  lutar por um mundo menos desigual. Talvez, Jorge Amado tenha sido, mais do que os outros, o responsável também pela  minha parte festeira, alegre, cantante.
Só alguns anos depois, já longe de Igarapava, percorreria outros caminhos da literatura, mas o tripé, a base, o estímulo a leitura foi formado ali: casa -clube - ginásio.

sábado, 7 de abril de 2012

A vida vem em ondas


Ondas de preconceito,  intolerância, segregação, hordas de imbecis em meio à diversidade.
Ondas de carros, motos, pedestres,  a morte trafega  solta no trânsito da cidade.
Ondas de revoltas, ocupações,  gritos de excluídos num mundo de explorados.
Ondas de calor,  poluentes, devastação sombria do planeta terra  ainda habitável.
Ondas de tecnologia, sistemas, redes sociais e  visibilidade.
Ondas de (des)informação, propaganda,  manipulação de  mídias em falta com a realidade.
Ondas de ações, capital,  crises, bancos, lucros,  reina soberano o mercado.
Ondas de terror, guerras, repressão, extremistas sem lei em nome de Deus e do Estado.
Ondas de um  mundo global, sem muito sentido,  tsunamis sem piedade

E pensar que eu acreditava serem as ondas
Apenas as doces ondas verdes do mar...

 

Medo de escuro



Vaga-lume se escondeu
Negou-se a  iluminar minha noite
de breu. 
.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Recordações...

Noite tranquila...A cidade parece dormir nessa sexta-feira santa. Aos poucos, o som da bandinha invade o quarto. " Eu confio em Nosso Senhor...com fé, esperança e amor..." Involuntariamente, fico cantoralando a música, tirada lá do fundo da memória. Arquivada. Não esquecida.
Da janela, vejo os anjinhos, as velas, o caixão de Jesus, os fiéis cantando, a procissão  de " Senhor morto" chegando à igreja.
Não há como não lembrar da menina com a avó indo velar o caixão, olhando os panos roxos cobrindo as estátuas dos santos, contrita, rezando ao lado daquela avó tão querida. A tristeza da escultura de Nossa Senhora, mãe sofredora ao ver o filho morto ainda é viva em sua memória. Tanta dor naquele olhar...Queria que chegasse logo o domingo, para ver a igreja florida, os cânticos de alegria e Maria feliz.
A cultura cristã foi introjetada desde a infância, não há como reverter. Sim, já são outros, os olhos, sem ingenuidade, que veem hoje a instituição Igreja Católica, são outros, os olhos, sem pureza, agora, a fazer suas críticas ao Vaticano, ao Papa, à pedofilia que perpassa a Igreja, mas há uma recordação em que não entra a culpa do pecado, a necessidade de cumprir as regras impostas, as proibições ao prazer da vida. Não existe mais aquele Deus -Vingador, Ele se transformou num Deus-Criador. Parece mais com uma compreensão da existência do espiritual, que nem chega a ser uma fé inabalável, mas que extrai o princípio principal, norteador para ela durante toda a vida: " Amai-vos uns aos outros e sereis filhos meus". E é esse o sentido que a menina-mulher vai dar ao Domingo da Ressusceição.Feliz Páscoa!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Noites no facebook

 Dia internacional da mulher 
e por falar em mulher
que a lua cheia na janela
estenda sua luz sobre todas elas
 ...
Voltando do Ponto Chic
lua cheia sobre a igreja
amigos falando no bar
momentos de paz
...
 Depois do bar
ah... o silêncio da volta
depois de tanta música
não é triste
mas quero o som do mar
para adormecer...
...
 Chegando de madrugada

Agora dormir
o sono dos justos
aquele em que adormecer
é apenas um detalhe
para quem quer sonhar
...
 Entardecer de um domingo qualquer

sombras silenciosas
descerram o véu da noite
solidão à espreita
...
Ouvindo música.
Em tardes cor de laranja e ar seco/  música é gota d’água caindo na alma...