Ela abriu a porta tranquilamente, pensando ser o amigo do filho, do segundo andar. Eles eram três, uma menina que mais parecia ser uma aluna sua, um rapazote nervoso e o mais velho, que lhe mostrou a arma.
Não acreditava que tinha bobeado tanto até ouvir a voz do rapaz:
_Por que não olha pelo olho mágico, tia, antes de abrir a porta?
_Ah! Pensei que fosse alguém conhecido.
_ Pois aprenda, tia, aquilo é para olhar, não é enfeite.
Queriam dinheiro. Artigo de luxo naquele fim de mês. Pensou, e agora? Disseram para se sentar no sofá e ficar quieta, sem gritar. Gritar? A única coisa que pensava era no seu azar, ser assaltada na mesma semana em que estava ainda digerindo o fato de ter descoberto o câncer. Teve vontade de rir, havia pensado tanto na morte, e, de repente, tinha a consciência de que poderia perder a vida ali, em um segundo. A cabeça a mil, olhava para o menino a sua frente.
_ Tia, baixe os olhos. Não olhe para mim.
Nem se dera conta de que encarava o rapaz. Também, mania essa que tinha de sempre querer conversar “ olhos nos olhos” com as pessoas.
As perguntas, insistentes.
_Onde está a grana, tia? Diga e nós a deixamos em paz.
_ Quem me dera ter dinheiro, tenho dívidas.
Pensando depois, ria do argumento usado para provar que estava dura.
_ Olhem a geladeira vazia. Se eu tivesse dinheiro ela estaria cheia de alimentos.
De repente, o menino chega esbaforido na sala, ar de triunfo, como se estivesse carregando um troféu. Ela olhou espantada para o par de algemas em suas mãos e mais atônita ficou, quando ouviu:
_ Dona, seu marido é policial, pode ir dizendo onde ele guarda a arma.
Ela olhava as algemas, o menino, não se lembrava delas, nem sabia o que responder. Se ainda tivessem sido usadas durante o sexo, quando ainda era casada, lembraria de bom grado, mas não fazia idéia de onde elas tinham saído.
_ Não me pergunte sobre nada que está naquele quarto. É tudo do meu ex-marido, não entro lá, mas uma coisa sei, ele não é policial.
O mais velho se aproximou e pegando as algemas, viu que eram de brinquedo. Seriam de quando o filho era pequeno e o pai as tinha guardado de lembrança? Não se recordava. Sentiu um alívio. Estranho, confiava mais no assaltante mais velho, que lhe parecia ser o chefe, olhar gelado, poucas palavras, sabia que as decisões quem tomava era ele. Foi pensar nisso e ouviu a voz metálica:
_ E as jóias? Essas sempre existem.
Sua resposta foi imediata. Seguia direitinho o manual do Assalto com final feliz. Foram pegá-las no quarto. Com voz irritada, a menina a chamou para ir lá pois não estava achando as jóias, seguido do comentário:
_ Depois vamos embora, porque senão, daqui a pouco, nós é que vamos ter que deixar dez reais para ela.
Não resistiu, a professora existente nela sempre se manifestaria. Respondeu no ato:
_ Não tenho culpa de não ter dinheiro
A menina, petulante, disse:
_ E acha que nós temos culpa de estar aqui assaltando?
Percebeu que não podia despertar a animosidade deles e continuou:
_ Claro que não. A culpa é do sistema, da sociedade desigual que vivemos. Tenho alunos da periferia e blá blá blá...
Não acreditava naquele diálogo non sense sobre quem era culpado da situação, eles se justificando e ela tentando dar lição de moral.
O mais velho acabou com a brincadeira dizendo, vamos embora. E, virando-se para ela, disse, pode ficar calma, só vamos fazer mais um assaltozinho ali e depois vamos para casa. A voz era de uma ironia atroz. Ficou quieta. O olhar dele caiu sobre a pasta dos exames.
_ O que tem aqui?
_ Meus exames pré – operatórios. Faço cirurgia de mama semana que vem.
Será que minha voz transmitia sinceridade? Ele desistiu de olhar dentro da pasta. O dinheiro poderia estar lá. Virou-se para ela e disse:
_ Sente-se aqui. Amarrou-a com as gravatas do filho. Pensou em uma conversa que havia tido um dia antes sobre bondage, com um amigo, e, novamente teve uma vontade enorme de rir. Como a vida nos prega peças. Quem diria que estaria sendo amarrada em seguida?
O homem a olhou longamente, e deu-lhe um beijo na face dizendo:
_ Não se preocupe, sua cirurgia vai dar certo. Daqui a pouco alguém chega e te desamarra.
Foi nesse momento que suou frio. Foi o único momento que teve realmente medo. Teve a certeza que era um beijo como o dos filmes de máfia, o beijo da morte, e fechou os olhos. Um pensamento cruzou rápido sua mente, bem, vou fazer como quando tiro sangue, se não olho a agulha entrando, não sinto nada. Não vou sentir a bala entrando em mim se ficar com os olhos fechados.
Silêncio.
Lentamente abriu os olhos, escutou, nenhum ruído. Tinham ido embora. Com a mão trêmula conseguiu se desvencilhar das gravatas e correu para a porta. Trancada. Tinham levado a chave, mas a tetra não. Trancou a porta com ela e foi tomar as providências normais de quem foi assaltada.
Continuava viva.