Primavera gelada em São Paulo. Convite para feijoada e samba do outro lado da cidade, certeza de tarde gostosa, ela e a amiga rumam para a ZL. Dessa vez não erram o caminho, as avenidas não mais intermináveis, o bairro menos pobre e a rua não tão feia. Acostumou-se talvez. Sempre o primeiro impacto dói mais. Depois, banaliza-se.
O aniversariante está no portão, peito aberto aos abraços, sorriso largo no rosto.
O quintal é o mesmo, apenas as árvores estão mais frondosas, a sombra mais acolhedora e a pitangueira carregadinha de pitangas maduras.
-Caipirinha de pitanga é muito boa!
Na cozinha, a mãe da dona da casa conversa sobre pitangas, amoras, jabuticabas entre sorrisos e receitas. Impossível não associar a sua infância, a seu o quintal, aquelas árvores antigas, ali, em roupagem nova.
Na cozinha, a mãe da dona da casa conversa sobre pitangas, amoras, jabuticabas entre sorrisos e receitas. Impossível não associar a sua infância, a seu o quintal, aquelas árvores antigas, ali, em roupagem nova.
Ela olha os músicos chegando, se achegando sob as árvores, com seus banjos, cuícas, pandeiros, timbas, bongôs, cavaquinhos e agogôs. O samba pede passagem no fundo do quintal.
Os amigos afetuosos, abraços e cantoria alegre, brincadeiras e falas sérias, afinal, o segundo turno para presidente está aí e as gozações de quem é mais à direita ou mais à esquerda, se da "zelite" ou do povão não dá margem a brigas, apenas a risadas.
Feriado passando alegre, gente jovem, velhos, crianças, comunhão de seres ligados por algum elo do destino, que os faz se sentirem irmãos.
Feriado passando alegre, gente jovem, velhos, crianças, comunhão de seres ligados por algum elo do destino, que os faz se sentirem irmãos.
De onde vem esse sentimento de solidariedade gratuita, de participante de um mundo só, na diversidade das vidas ali? São estranhos, mas próximos.
A tarde cai.
As primeiras sombras escondem a chegada da visita.
As primeiras sombras escondem a chegada da visita.
Ela não foi convidada. Trazida talvez pelo vento frio, pelo ar soturno da noite, entrou desapercebida, silenciosa, deslizou invisível por nós e subindo as escadas nos levou a Lourdes.
Fim de festa, fim da vida.
Num minuto, num sopro, um coração deixou de bater.
Assim... levemente, como uma folha que cai, um som deixou de tocar.
Silêncio no quintal.
Silêncio no quintal.
Descanse em paz, doce senhora.


