Faz tempo. Ela era magra, olhos rasgados, um rosto quadrangular, e um sorriso aberto na boca carnuda. Já era triste. Muito. Triste e bonita.
Morava com a mãe estranha, uma meia irmã, meio empregada, meio dama de companhia da mãe, e um irmão sisudo, economista, que mal nos cumprimentava.
Ia da tristeza às risadas, da depressão à alegria. Quando entrávamos naquela casa, penso, agora, que éramos como um sopro de felicidade. Barulhentas, cheias de vida, ousadas, naquela Campinas provinciana, íamos para seu quarto, falávamos bobagens demais, de política, de namorados, de literatura e muita filosofia.
Pegávamos o fusquinha verde e, volta e meia, escapávamos para Santos. Naquele tempo, Santos já era uma aventura. Aventura para mulheres independentes como nos considerávamos, que não davam satisfação aos pais, perdidos no interior de São Paulo, nem aos olhares maledicentes da sociedade campineira tradicional. Do alto dos nossos dezoito anos, éramos donas do nosso nariz, ou, assim, estávamos certas que éramos. Seguíamos felizes, praia, mar, bares, com os estudantes de São Paulo, que também baixavam por lá. Paquerávamos, mais ainda virgens, dando os primeiros passos para a grande aventura sexual.
Ela se mantinha sempre meio afastada, aérea, olhando o mar. Gostava de nossa companhia e nós, da dela. Era sempre a amiga a quem recorríamos para ouvir a opinião sobre nossos “dramas existenciais”. Um quarteto, com sede de vida, ah...o que nos reservava a existência?
Uma noite, combinamos de descer para ver o sol nascer na praia. Como sempre fui dorminhoca, ela ficou de me acordar. No outro dia, bocejando olhei o relógio, dez horas:
- Por que não me acordou?
- Ah, ela respondeu, você dormia tão gostoso. Bobagem minha, vamos ver o sol se por, é tão bonito quanto o amanhecer do dia.
- Furona, ainda disse, virando-me para o outro lado e adormecendo de novo.
Dias depois, com sua voz rouca e grave, revelou:
- Sabe? O que não te contei, é que tinha decidido me suicidar no mar. Durante a noite, te vendo dormir tão tranqüila, achei que seria um desaforo com você. Seria muito ruim você participar disso, não poder fazer nada na hora, e ficar com a sensação de impotência que qualquer suicídio traz, talvez, para sempre.
Levei um pouco na brincadeira, afastei logo aquele pensamento do que poderia ter acontecido, jurando que nunca a teria perdoado por aquele ato insano, e a vida prosseguiu.
Formadas, viemos para São Paulo. Ela permaneceu lá. Ainda retornávamos de vez em quando, alegria, juntas, por um fim de semana, e a deixávamos de novo. Aos poucos, o contato foi rareando, cada uma seguiu sua vida, dispersamo-nos no tempo.
Depois de uns quinze anos, ela voltou a me telefonar. Morava em São Paulo, tinha feito as pazes com o irmão, sua meia irmã tinha casado, a filha era considerada como uma sobrinha, mas tinha um problema. Descobrira que era bi polar, tomava remédios, subia os degraus da euforia e de lá despencava para a depressão. Parecia sobre controle. Ria, me perguntando se eu a imaginava com a mesma doença do velho Ulisses Guimarães.
Os telefonemas eram feitos uma vez por ano, e, na época, eu trabalhava o dia inteiro, nos intervalos levava meu filho para acompanhamento no Instituto Dorina Neill, ela querendo saber os resultados, e, cada vez mais, a voz me parecia aguda, quando contava o que fazia. Sabia que me ligava nos momentos de euforia.
Num dos últimos telefonemas, contou-me que os moradores do prédio tinham chamado o corpo de bombeiros, porque havia ameaçado se jogar da janela, nua, o que, por pouco não aconteceu, dizia, porque eles foram muito convincentes ou ainda não era a hora certa.
Há quatro anos os telefonemas cessaram. Também não liguei. Às vezes, ficamos tão absorvidas pelos nossos próprios problemas, que a cegueira frente aos dos outros é inevitável.
Ontem soube que se suicidou.
A ela, meu carinho tardio, agora, sem muito sentido.
ilustração: Sergio Prata
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