A festa
A festa prometia ser animada. Alegria pela vitória de seu partido estampada no rosto, foi encontrar-se com os companheiros, que estariam sorrindo assim como ela. Dito e feito. O clube escolhido, cheio de estrelinhas vermelhas, era pequeno para todos que tinham batalhado para aquela comemoração. Abraços, beijos, palmas, ar de promessas de dias melhores para São Paulo. Muita dança, muita cerveja, muita cantoria noite adentro.
Três horas da manhã, ela já estava entregando os pontos. Sentada à mesa, os olhos perscrutavam os detalhes da decoração partidária até fixarem-se na escada. O que será que haveria nos outros andares? Resolveu investigar para passar o tempo. Ninguém arredaria pé dali, mesmo, antes das cinco horas. Subiu.
Olhou o salão vazio do primeiro andar, alguns sofás, e o piano. Em volta dele dois casais de mais idade. Uma das senhora tocava uma música, aparentemente inaudível, enquanto os outros encostavam o ouvido na madeira dizendo que estava lindo. Aproximou-se e também quis ouvir. O som das teclas conseguia superar o barulho do salão de danças e ela pode ouvir alguns acordes de Villa Lobos. A cena era digna de um filme de Pasolini. Deixou-os sorrindo e subiu mais um lance.
No segundo andar, havia aparelhos de ginástica espalhados. Ficou com vontade de fazer esteira, tentou ligar uma, nada. Desistiu. Como sempre, desistia das coisas à primeira dificuldade.
Mais um lance de escadas e deu de cara com uma porta de vidro: proibida a entrada de menores. Entrou. Era um salão de jogos. Mesas forradas com panos verdes, e, no fundo, o balcão de bar.
- Senhora, não é permitida a entrada de pessoas estranhas aqui.
Nem percebera o garçom chegando. O álcool a deixara mais alegre e ela respondeu:
- Errado, proibida a entrada de menores, e eu posso ser sua tia.
Passou por ele, atraída por vozes que vinham de uma pequena saleta. Olhou curiosa. Ambiente enfumaçado, homens jogando e duas mulheres, de preto, olhando. Pensou, a qualquer momento vai surgir um ator de filme noir, um Al Capone, a polícia. Não, estava no Brasil. Riu sozinha. Pediu um café ao Maître, que confirmou ser ela persona non grata ali, mas, educadamente, colocou a xícara na sua frente.
Enquanto no térreo a festa era da vitória do socialismo - sim, porque seu partido ainda era socialista naquela época - alguns metros acima corria solto o jogo proibido no cassino clandestino.
Pela porta entreaberta via rostos tensos, sérios. Estariam perdendo? Ficariam desesperados depois? Jogo era um vício cruel, que ia corroendo fortunas, casas, desejos, amores.
Terminou o café, agradeceu e voltou ao salão de festas. Queria brincar com algum petista mais xiita sobre o paradoxo das duas situações, só para se divertir com a explicação que seria dada.
O homem estava sentado olhando indiferente para as pessoas. Sentou-se ao lado e começou a falar. Com uma voz pausada, ele comentou:
- Sim, eu estava lá. Venho jogar sempre, já perdi o suficiente por hoje, parei aqui para ver o que acontecia. Estou com vontade de dançar, venha. Sem dar tempo a um sim ou não, pegou-a pelo braço e a conduziu para a pista.
Só mesmo com ela poderia acontecer isso. Bem que os amigos diziam que ela era rainha das trapalhadas.
O jogador a segurava firme, sentia suas mãos pressionando suas costas, enquanto rodavam pelo salão. Súbito, sentiu uma língua em sua orelha, e o corpo dele grudando-se ao seu. Quis se desvencilhar, mas inútil. Ele sorriu, não deixou que ela se afastasse, deu-lhe um beijo. O que acontecia? Sentiu-se uma marionete naquelas mãos desconhecidas, habituadas a embaralhar cartas, embaralhando suas idéias agora. As mãos de repente passaram a percorrer seu corpo, das costas às coxas, levemente, deslizando rapidamente em um jogo de sobe e desce que foi deixando-a deliciosamente excitada. Quis parar, ele não ligava, ignorava os pequenos movimentos que ela fazia e a trazia até si. Os beijos foram se tornando longos, as línguas se misturavam ao ritmo da música. Perdeu a noção do tempo naquela dança de desejos.
O salão esvaziara.
Olhou em direção à mesa dos amigos. Deserta. E agora?
Foi até lá, onde estaria sua bolsa? Alguém a teria levado? Os amigos deviam ter pensado que eles se conheciam e que o companheiro a levaria para casa? Mas e a bolsa? Como iria embora?
O jogador apenas olhava com um sorriso entre divertido e mordaz. Pergunta daqui e dali, nada de bolsa, nada de ninguém.
Lá fora uma chuva gelada, prenunciava um amanhecer cinza em São Paulo. Aceitou a carona oferecida.
Correram até o carro, o que não impediu que molhasse os cabelos, que ele enxugou levemente com uma toalha que estava no banco de trás. Passou as mãos sobre seus seios, desceu para sua barriga, encontrou seu sexo. Ela estremeceu naquele vai e vem de mãos se encontrando, explorando, acariciando, se deliciando. Beijaram-se sem fôlego, arfantes naquela devoração entre-dentes-sobre-línguas-mordiscando-salivando-sem parar.
O dia amanhecia.
- Vamos para minha casa?
- Não. Preciso ir embora. Você me prometeu...
- Sim. Vou te levar em casa.
Fez um caminho longo. Com a voz cansada foi discorrendo sobre o que fazia, o que perdera, sobre seus sonhos desfeitos, sobre sua vida vazia. Os olhos mostravam um tédio imenso. Será que brilhariam com as cartas na mão?
- É aqui.
Ele estacionou, olhou para ela, puxou-a delicadamente e pousou um beijo suave sobre seus lábios.
- Vá, não vale a pena.
Ela ainda disse para ele ligar, mas a voz não saiu convincente. Ele sorriu. Era um sorriso triste. Havia entendido o medo dela pelas cartas. Sabia que não iria jogar no escuro. E ele já não sabia como sair.
Disseram-se adeus.