domingo, 20 de dezembro de 2009

Perda III

um amargo lembrando a jiló
espalha-se por minha boca
na falta das palavras doces
que saiam de meus lábios
na ilusão do amor

secura na lingua
 mágoa no olhar
 tristeza na mente

cada um pro seu lado
cada qual pra seu canto
driblando o pranto
na mudez total
do silêncio do adeus.

ilustrção: Munch

Classificados III


 Troca-se uma sensação de vazio por uma ilusão qualquer de amor.

ilustração: Munch

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Ponte aérea Rio-SP


Tu tens a praia
fico com a praça
pisas na areia
ando no asfalto
olhas o azul
as nuvens que passam
meu céu  é cinza
só névoa e neblina
o mar te envolve
o verde se espalha
o concreto sufoca
a poluição me invade




tua beleza se exibe
a minha é tímida
esbanjas natureza
sou toda construída
em teus  morros há morte
morre-se aqui
na periferia

sábado, 12 de dezembro de 2009

Para HP

Tenho um amigo
entre tantos
com o coração de menino
e a alma feita toda
de encanto

Tenho um amigo
 há anos
com o peito repleto de afeto
 e o hábito estranho
de ser por inteiro

Tenho um amigo
antigo
artista ou mago de fato
que sabe fazer de amar
 um verbo 
mais que perfeito

Tenho um amigo
ausente
com asas nos dedos
para mandar em palavras
o afago
que não mereço

Tenho um amigo
que amo
de tal forma e tanto
  que mesmo à distância
é impossível
não vê-lo tão verdadeiro


ilustração: Marc Chagall

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Desde sempre tua


Preciso descobrir
Em que desvão do corpo
Escondi tua marca
Para remove-la aos poucos
Apagando os traços
Dessa vontade insana
De ser tua serva
Sempre e onde for

Preciso descobrir
Em que lugar da mente
Guardei teu poder
Para livrar-me dele
E seguir sozinha
Desfazendo a teia
Do impossível amor
Que queria ter

Preciso descobrir
Em que lugar do mundo
Deixei os meus sonhos
Para buscá-los todos
Fazer um mutirão
Para espantar a dor
Que teu desprezo ímpar
Em mim provocou

Preciso descobrir
Em que lugar do peito
Perdi a vontade
Para lutar de vez
Contra esse desejo
Incontrolado e insano
De em ti me perder

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Natal

é natal

uma bruma branca
neve de nuvens
esconde o azul
do meu mundo tropical

vestido de vermelho
o coração sangra
chora o papai noel
que ficou para trás

e as três estrelas guias
se apagam
na lágrima que cai

mas é natal

ao longe
o choro da criança
reafirma a teimosia
da vida

ilustração: Klimt

sábado, 5 de dezembro de 2009

O namorado e Eça de Queirós

Olhava o mar imenso e a lembrança foi chegando como uma onda em sua mente, trazendo os olhos do menino quase perdido em seu passado.
Com um sorriso nos lábios deixou a memória ir para o tempo em que mar para ela era aquele olhar verde, profundo, que parecia conter toda a verdade do mundo. Nele, navegava por instantes quando se cruzavam nas ruas, quando ele passava pela calçada de sua casa e a olhava timidamente como a contar-lhe um segredo.
Pensando agora, sabia que era o segredo da descoberta do amor, do encantamento de olhares furtivos trocados de forma inocente, prenunciando o gozo entre um homem e uma mulher.
Perguntava-se se ali havia começado essa sua mania de se encantar pelos olhares de homens pela vida afora, fascinada pelos que lhe pareciam ir além do que viam.
O menino tinha uma namorada. Bonita, moça de família como se dizia na época,  o namoro parecia seguir o rumo natural dos casais da cidadezinha que terminavam em véu e grinalda, filhos, vida parada do interior seguindo seu curso lento. Não eram amigas. A namorada sempre a olhava desconfiada parecendo dizer que sabia do segredo entre os dois.
Seria a tão famosa intuição feminina,  alardeada como característica feminina?
E o tempo passava...
Foi estudar na cidade grande, já não se interessava pelas férias em casa, que mais lhe pareciam uma punição. Sentia falta dos colegas da faculdade, das aulas, das discussões políticas, das greves, das reuniões em bares para mudar o mundo, sempre acompanhadas por violões e cantorias. Para ela, aquelas pessoas interioranas, alienadas, eram incapazes de compreender o verdadeiro significado da vida. Recusava-se a fazer os programas da antiga turma, agregando-se a um pequeno grupo que pensava como ela. 
Lembrava-se, rindo muito agora, de um carnaval em que ficaram, eram cinco amigos, a noite toda no bar da rodoviária em frente ao clube, sentados nas mesinhas toscas com os bêbados da cidade até o amanhecer pelo prazer da transgredir a moral e os bons costumes da família tradicional interiorana. Tão jovens, tanto ainda para aprender da vida, e já se achavam os donos do mundo!
Apesar da relutância em conviver com quem achava provinciano, fazia uma exceção.
Á tarde, sentada no alpendre com a avó velhinha, que tanto gostava, aguardava o mergulho no verde daquele olhar. Ele passava e, por segundos, não sabia explicar o que sentia, apenas uma sensação de prazer a percorrendo toda.
Noite de baile pré-carnavalesco, a irmã mais nova só poderia ir se ela fosse. Aprontou-se de forma displicente, sem vontade, apenas para fazê-la feliz, torcendo para que um dos amigos estivesse lá, assim o tempo passaria mais rápido. Ainda bem que era a última semana de férias, queria ir embora logo para sua nova vida.
Pensava agora nos conterrâneos da sua época, alguns tinham ficado por lá mesmo, outros se aventuraram por outros cantos da região, do estado, do país, do mundo. Ela se tornara, talvez, a provinciana para aqueles que tinham se tornado cidadãos do mundo... Quantas voltas na vida!
Ele veio em sua direção como um leopardo. Sempre a imagem dele surgia em sua mente como a de um felino. Talvez por ser quieto, ter um andar lento ou pelo olhar que lembrava um bicho à espreita.
Dançaram a noite toda quase sem se falarem. Os corpos unidos, as coxas entrelaçadas, o toque das mãos formavam palavras, o roçar das faces,  linguagem. De madrugada, já eram namorados.
A semana voou. Muitas conversas e risadas sobre o desejo contido da adolescência, os ciúmes sem causa aparente da ex- namorada, os planos de cada um para suas vidas, o que fariam com a separação do período de aulas.
Longe, trocaram algumas cartas, saudades ao telefone, ela esperava as férias um pouco ansiosa para saber realmente como seria a continuidade do encontro.
Julho.
Começaram a fazer os programas tradicionais dos namorados da pequena cidade. Cinema, piscina, festas, clube. Clube, festas, piscina, cinema. Ele era quieto. Não gostava de política, não sabia de Marx,Trotsky, Lênin.  Pensava seriamente em deixar a faculdade para tomar conta da fazenda do pai. MPB, Chico e Elis, não estavam em seu repertório musical. Mudar o mundo, diminuir as desigualdades sociais, não, para ele era o destino de cada um, assim era e assim seria o mundo, amem.
Uma noite, sentados num banco da praça, ela havia retirado um livro da biblioteca do clube,   começaram a falar de literatura. O assunto foi parar em Eça de Queirós. Ele não fazia idéia de quem era e ria dizendo que também não tinha o menor interesse em saber.Não gostava de ler.
Naquele momento algo dentro dela se rompeu e o verde daquele olhar se transformou, de repente, em um oceano de distância entre eles. Sentiu-se em uma ilha, despediu-se do mar.
Hora de ir embora, hora de adeus.
Soltou uma risada ao lembrar-se da raiva que sentiu por ele não estar nem aí com o  Eça,  por não valorizar   as letras que ela amava e que faziam sua imaginação ser tão maior do que  seu pequeno mundo. Foi sua primeira opção pela literatura.
Em seu túmulo, o velho escritor deve ter dado boas gargalhadas.
Cupido às avessas, se não fosse por ele, talvez em vez do vagar à beira mar, poderia estar percorrendo o verde de canaviais, ou cuidando de repolhos e chuchus.
Será que seria mais feliz?

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Saudade

e sem mais nem menos
como quem não quer nada
ela chegou
parecia uma onda maior de calor
um raio mais forte de sol
quando tocou em meu corpo
feito um espinho fincado
um caco de vidro pisado
uma picada de inseto
que minha pele esquentou
só quando em minha mente a imagem
quase sorrindo me olhou
percebi
que era  saudade
a danada que em mim
entrou.

Visita

permito à tristeza uma visita
uma só
 tua lembrança chega
se aninha em meus braços
 pede afago
sem dizer nada
dorme em paz

debruço-me sobre ela
olho o sorriso brando
quase esquecido
sussurro palavras doces
antes ditas
espero paciente
que acorde
 e depois se vá.

o silêncio da partida me faz chorar.

ilustração: Salvador Dalí

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Vida


Um fio conduz meus passos
E por ele sigo
Tento o equilíbrio
Teimo e vivo
É um fio de arame
E nele penduro
Os fantasmas dos sonhos
Inúteis/ inventados
Rasgados e perdidos
É um fio escorregadio
Desenrolado
Pouco a pouco
Ao sabor do acaso
Do desejo
Das paixões e de meu desvario
É de arame farpado
Esse fio existente
Em que me agarro
Empedernida
Triste ou alegre
De qualquer forma
A minha vida.

domingo, 29 de novembro de 2009

Chuva em São Paulo

Chora São Paulo
Lágrimas caem
num pranto convulsivo
pelas ruas molhadas
Desaguam em enxurradas
correndo pelas sarjetas
em direção aos bueiros
O nó da garganta é grande
desfaz-se convulsivo
lamacento
espalhando-se pelo asfalto
até transformar-se em enchente

Chove em São Paulo
O espelho das águas
Reflete a tristeza
da cidade.

O mar e você


O mar me acolheu
Me abarcou
Me prendeu
Me salgou
Salmoura na pele
Sal nas entranhas
Me afundei em salinas
Saltei entre as ondas
Senti a ardência do sal
Pelos poros
Na nuca
No seio e no ventre
Levou meu controle o mar
Meu medo
Meu senso
Meu intento
Tu eras o mar
E eu só te tendo
Tu eras sol-sal
E eu o teu vento...

Perda II

Não sei mais escrever poemas
Que pena
Eram avalanches de palavras
A formar frases de amor

Não sei mais de teus desejos
Às vezes lembro
Eram pingos de luxúria
A escorrer entre nós dois

Não sei mais dos nossos sonhos
Sem destino certo
Vagaram em desatino
Sucumbiram com a dor

Restou-me a expressão sombria
A secura na boca
E o desalento amargo
Dessa solidão vazia

ilustração: E. Hopper

Lembrando uma festa do PT


A festa
A festa prometia ser animada. Alegria pela vitória de seu partido estampada no rosto, foi  encontrar-se com os companheiros, que estariam sorrindo assim como ela. Dito e feito. O clube escolhido, cheio de estrelinhas vermelhas, era pequeno para todos que tinham batalhado para aquela comemoração. Abraços, beijos, palmas, ar de promessas de dias melhores para São Paulo. Muita dança, muita cerveja, muita cantoria noite adentro.
Três horas da manhã, ela já estava entregando os pontos. Sentada à mesa, os olhos perscrutavam os detalhes da decoração partidária até fixarem-se na escada. O que será que haveria nos outros andares? Resolveu investigar para passar o tempo. Ninguém arredaria pé dali, mesmo, antes das cinco horas. Subiu.
Olhou o salão vazio do primeiro andar, alguns sofás, e o piano. Em volta dele dois casais de mais idade. Uma das senhora tocava uma música, aparentemente inaudível, enquanto os outros encostavam o ouvido na madeira dizendo que estava lindo. Aproximou-se e também quis ouvir. O som das teclas conseguia superar o barulho do salão de danças e ela pode ouvir alguns acordes de Villa Lobos. A cena era digna de um filme de Pasolini. Deixou-os sorrindo e subiu mais um lance.
No segundo andar, havia aparelhos de ginástica espalhados. Ficou com vontade de fazer esteira, tentou ligar uma, nada. Desistiu. Como sempre, desistia das coisas à primeira dificuldade.
Mais um lance de escadas e deu de cara com uma porta de vidro: proibida a entrada de menores. Entrou. Era um salão de jogos. Mesas forradas com panos verdes, e, no fundo, o balcão de bar.
- Senhora, não é permitida a entrada de pessoas estranhas aqui.
Nem percebera o garçom chegando. O álcool a deixara mais alegre e ela respondeu:
- Errado, proibida a entrada de menores, e eu posso ser sua tia.
Passou por ele, atraída por vozes que vinham de uma pequena saleta. Olhou curiosa. Ambiente enfumaçado, homens jogando e duas mulheres, de preto, olhando. Pensou, a qualquer momento vai surgir um ator de filme noir, um Al Capone, a polícia. Não, estava no Brasil. Riu sozinha. Pediu um café ao Maître, que confirmou ser ela persona non grata ali, mas, educadamente, colocou a xícara na sua frente.
Enquanto no térreo a festa era da vitória do socialismo - sim, porque seu partido ainda era socialista naquela época - alguns metros acima corria solto o jogo proibido no cassino clandestino.
Pela porta entreaberta via rostos tensos, sérios. Estariam perdendo? Ficariam desesperados depois? Jogo era um vício cruel, que ia corroendo fortunas, casas, desejos, amores.
Terminou o café, agradeceu e voltou ao salão de festas. Queria brincar com algum petista mais xiita sobre o paradoxo das duas situações, só para se divertir com a explicação que seria dada.
O homem estava sentado olhando indiferente para as pessoas. Sentou-se ao lado e começou a falar. Com uma voz pausada, ele comentou:
- Sim, eu estava lá. Venho jogar sempre, já perdi o suficiente por hoje, parei aqui para ver o que acontecia. Estou com vontade de dançar, venha. Sem dar tempo a um sim ou não, pegou-a pelo braço e a conduziu para a pista.
Só mesmo com ela poderia acontecer isso. Bem que os amigos diziam que ela era rainha das trapalhadas.
O jogador a segurava firme, sentia suas mãos pressionando suas costas, enquanto rodavam pelo salão. Súbito, sentiu uma língua em sua orelha, e o corpo dele grudando-se ao seu. Quis se desvencilhar, mas inútil. Ele sorriu, não deixou que ela se afastasse, deu-lhe um beijo. O que acontecia? Sentiu-se uma marionete naquelas mãos desconhecidas, habituadas a embaralhar cartas, embaralhando suas idéias agora. As mãos de repente passaram a percorrer seu corpo, das costas às coxas, levemente, deslizando rapidamente em um jogo de sobe e desce que foi deixando-a deliciosamente excitada. Quis parar, ele não ligava, ignorava os pequenos movimentos que ela fazia e a trazia até si. Os beijos foram se tornando longos, as línguas se misturavam ao ritmo da música. Perdeu a noção do tempo naquela dança de desejos.
O salão esvaziara.
Olhou em direção à mesa dos amigos. Deserta. E agora?
Foi até lá, onde estaria sua bolsa? Alguém a teria levado? Os amigos deviam ter pensado que eles se conheciam e que o companheiro a levaria para casa? Mas e a bolsa? Como iria embora?
O jogador apenas olhava com um sorriso entre divertido e mordaz. Pergunta daqui e dali, nada de bolsa, nada de ninguém.
Lá fora uma chuva gelada, prenunciava um amanhecer cinza em São Paulo. Aceitou a carona oferecida.
Correram até o carro, o que não impediu que molhasse os cabelos, que ele enxugou levemente com uma toalha que estava no banco de trás. Passou as mãos sobre seus seios, desceu para sua barriga, encontrou seu sexo. Ela estremeceu naquele vai e vem de mãos se encontrando, explorando, acariciando, se deliciando. Beijaram-se sem fôlego, arfantes naquela devoração entre-dentes-sobre-línguas-mordiscando-salivando-sem parar.
O dia amanhecia.
- Vamos para minha casa?
- Não. Preciso ir embora. Você me prometeu...
- Sim. Vou te levar em casa.
Fez um caminho longo. Com a voz cansada foi discorrendo sobre o que fazia, o que perdera, sobre seus sonhos desfeitos, sobre sua vida vazia. Os olhos mostravam um tédio imenso. Será que brilhariam com as cartas na mão?
- É aqui.
Ele estacionou, olhou para ela, puxou-a delicadamente e pousou um beijo suave sobre seus lábios.
- Vá, não vale a pena.
Ela ainda disse para ele ligar, mas a voz não saiu convincente. Ele sorriu. Era um sorriso triste. Havia entendido o medo dela pelas cartas. Sabia que não iria jogar no escuro. E ele já não sabia como sair.
Disseram-se adeus.

sábado, 28 de novembro de 2009

Erótica


Quis fazer um poema erótico
Pensei teus dedos como ondas
Suaves a acariciar meus pés
Violentas a quebrar em meus seios
Espumantes a rebentar em meu corpo
E do teu mar não quis mais sair

Quis fazer um poema erótico
Vislumbrei tua boca como poço
A matar minha sede
A molhar meu ventre
Era água pura a que jorrava ali  
E do teu poço não quis mais sair

Quis fazer um poema erótico
Senti teu sexo como rio
Cavando o leito por minhas nádegas
Correndo solto em minhas pernas
Explodindo em mim tal cachoeira
E do teu rio não quis mais sair

Quis fazer um poema erótico
Tornei-te natureza pra me possuires.

ilustração: Picasso

Mais uma vez

Mais uma vez
Não percebi a trama
Que teus dedos seguros
Em busca dos meus
Traçaram

Mais uma vez
Não percebi a teia
Que tuas palavras
Em respostas às minhas
Teceram

Mais uma vez
Não percebi a rede
Que tua sedução
Em volta de mim
Lançou

Mais uma vez
indefesa
em tua malha
estou

Tua voz


Tua voz lembra
o bailado do capim-gordura
ao sabor do vento
Tua voz carrega
o sussurro das folhas
caindo nesse outono lento
Tua voz é clara
chama de lamparina
tremulando noite adentro
Tua voz sorri
na medida exata
do teu pensamento

Tua voz_ sabias?
É da cor dos teus olhos
azul por dentro

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Cheiro de mato

 

tenho o cheiro do mato
quando me tornas tua presa
trago o cheiro do rio
quando me dobras ao meio
és como um bicho do mato
quando me fazes tua fêmea
viro um bicho em cio
quando me cobres inteira

ilustração: Marc Chagall

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Angelus



Acorda-me
Àquela hora
Que é a hora
Mais bela de estar
Em que o badalo
Do sino
Ao tocar
Anuncia
As horas roucas
De cada passo
Do amar


não verterei lágrimas com tua ausência
nem salgarei os sulcos de meu rosto
deixando-as escorrer pela distância

guardarei todas
represadas em lagos
na menina dos meus olhos
e com a doçura da espera
abrirei as comportas
para alegrar tua volta

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O amor


e de amor não falo
o amor levou a rima
me calo...

e de amor sou oco
o amor roubou meus sonhos
tão poucos...

e de amor não cresço
o amor secou a fonte
esmoreço...

e sem amor não vivo
no aguardo da morte
passo...

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Perda I


Que pena!
Acordei sem ternura
Sem espaço
Nem para teu abraço
Transformado em laço frouxo
Solto ao vento
Que pela janela entrou

Que pena!
A menina que fui
Ficou presa ao sonho
Desfeito em mil pedaços
Nem restaram afagos
Ou marcas coloridas
No corpo que acordou

Que pena!
O dia amanheceu cinza sem o teu amor.

Noite em Sampa

é noite em Sampa
no ar há neblina
no chão o asfalto
o mendigo
dor

uma estrela surge
rompe o breu
tímida réstia
a brilhar
na escuridão

sua luz trêmula
corta o céu
ilumina o concreto
e definha
nessa solidão 

ikustração: Filonov

Receita de solidão


Descasque a angústia reprimida
Mantenha aquela ausência
em melancolia
Misture as mágoas lentamente
Refogue com o tempo perdido

Coloque tristeza em dose dupla
Amasse sem dó a esperança
Pingue as lágrimas uma a uma
Leve ao freezer a alegria

Depois
Com um nó no peito
Acrescente um toque de saudade
bem doída

E sirva sem o lado bom da vida.

ilustração:E.  Hooper

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Da visita...


Um olhar curioso percorre a casa...querendo desvendar a mulher por meio dos objetos de sua intimidade.As pupilas negras, atentas, perscutam o espaço...indo dos móveis ao encontro do outro olhar...Este sim... alegre...divertido...acolhedor...que observa...que analisa...que se delicia... deixando-o à vontade na casa estranha. E a conversa vem... e a conversa vai...se instala a cumplicidade de amigos que nunca foram e estranhamente são...Uma paz gostosa toma conta de seu corpo a cada palavra trocada...As horas passam rápido...a necessidade de ir embora...nada lembra desejo.Há uma certa frustração nos olhares que  de repente...por mágica...cessa. O ar quente da tarde passa a ser brasa queimando seus corpos...Um imã os atrai...o desejo é quase palpável...fica latente...presente em seus lábios...palavras...olhares...como se fosse paixão. Não se tocam por um tempo... apenas brincam... um jogo de sedução implícito em cada gesto...Despedem-se com um abraço apertado...o mundo lá fora aguarda...A mão decidida segura seu queixo...aproxima seus rostos...no silêncio atrás da porta... apenas os lábios sussurram...abrem-se... amam-se no beijo...
Amanhã venho te ver....e o sorriso branco vai embora...

Do reencontro...


No burburinho da rua, os olhos se cruzam... Surpresos...permanecem mudos por um segundo...estáticos na calçada...no espaço... no tempo.  Os olhos negros misturam-se ao azul do outro olhar... e o sorriso   espalha -se  pelo  rosto do homem até alcançar o da mullher. O abraço intenso derrete o iceberg abrindo as comportas do desejo contido... O toque da mão na pele...seguro. O percurso de  dedos pelos poros...suave.  A barba roça a face...força a passagem. A pele macia escorrega pelo rosto...mostra o caminho.  Os beijos  sugam  os pescoços...Palavras flutuam de boca em boca... faíscas conhecidas  reacendendo a chama... Chama incontrolável que não se acalma com as reticências... chama que se aplacará apenas com o ponto final.

ilustração: Marc Chagall

Do telefonema...



Tua voz ao longe acende em mim o desejo quase apagado pela  tua ausência... Tu falas e tateio a pele negra macia que minhas mãos não cansavam de alisar...Tu me  perguntas da vida e respiro teu hálito fresco ao se aproximar de minha boca sedenta por teu beijo fugaz...Tu brincas e ouço tua música... o som da timba a me alegrar nas madrugadas afora com o samba correndo até clarear...Tu me contas de teus dias e vejo teus olhos baixando como a noite em mim...pupilas de breu invadindo o azul dos meus... Tu dizes dos meses passados e como cada palavra com o sabor deixado pela  saudade... E vem tua gargalhada gostosa atravessando os fios... rompendo a distância como um orgasmo chegando devagar...explodindo em gozo ao acenar-me com tua volta... retomando teu lugar.

Do desejo...


Descobri numa fração de segundo o que tens, o que me atrai, prende, subjuga...o desejo....o desejo que escorrega de teus olhos ao me ver...o desejo das coisas impossíveis que me olha...o desejo surgindo em teu olhar,  nascente pura a jorrar de tuas pupilas negras....o desejo que me despe,  penetra, se infiltra em meu corpo, percorre meu sangue, atordoa....o desejo que nem tu mesmo te dás conta que procura o meu, que é centelha, abrasa, incendeia... e saímos da realidade...janela aberta...percorremos o infinito...é quando o meu desejo devora o teu....depois...
Depois voltamos à normalidade da vida.

ilustração: Marc Chagall

Um samba em São Miguel


Tarde fria de sábado. Enquanto espera as amigas, relembra o medo sentido na semana. A irmã com dores, a impotência diante do câncer, o pavor de vir a senti-las. A conversa com a psiquiatra, o saber estar em crise de ansiedade, sensível a tudo, o remédio anti-depressivo que não quer tomar, mas sabe ser inevitável para que as crises de choro cessem. Acende o cigarro proibido. Telefona inquieta: vocês vão demorar? Não quer ficar sozinha. Quer a rua, as conversas, as risadas, quem sabe alcançar a alegria fugitiva.
Finalmente chegam. Abraços efusiantes, beijos de saudades, sente-se acolhida.
Não sabe como continua gostando da cidade. O ar poluído, o trânsito imenso, ruas e mais ruas congestionadas, mas no carro predomina o riso. Perdem-se, voltam, viram errado, retornam, e o endereço parece ser de um agente secreto que não pode ser encontrado. Comem os salgadinhos, contam as novidades, falam de cabelo, de dieta, de homens, abrem uma cerveja da festa e seguem rumo àquele bairro nunca visitado. É como se fossem turistas na própria cidade. Duas horas e meia depois de viagem conseguem chegar.
O bairro é pobre. A rua triste, casas alinhadas umas às outras, inexistência total de verde, numeração descontínua, botecos, um mini mercado, carros velhos ao longo da calçada, periferia plena, sem cor.
Mas diz o ditado que a vida é sempre inusitada, e já o sorriso do dono da casa ao abrir o portão faz a pobreza sumir do cenário. Um quintal com árvores, uma jabuticabeira, uma mangueira pequena, e uma figueira? Aos seus olhos, sim, mas poderia ser uma cerejeira, laranjeira, limoeiro, qualquer uma delas lembraria a infância na cidade do interior. Vasos espalhados ao longo dos muros, a mesa improvisada, mesinhas espalhadas. A festa prometia.
Alguns conhecidos, muitos desconhecidos, sorrisos de boas vindas, feijoada chamando depois da epopéia da ida.
Anoitecia e a lua compareceu. Linda! Que delícia poder olhar aquela bola cheia no céu e dizer baixinho, como gostava de dizer sempre: “ O luar através dos altos ramos/dizem os poetas todos que ele é mais que o luar/ através dos altos ramos...” Uma paz gostosa tomou conta do seu corpo. Reencontrava-se finalmente.
Logo os músicos foram formando uma roda embaixo das árvores, tamborilando os instrumentos, cantarolando sambas, marcando compasso, afinando os instrumentos. E o som rompe forte. Anuncia o samba pedindo passagem na festa, na noite, na alma.
Ela agora canta as letras de Noel, de Paulinho, de Zeca e Candeia. Agora dança acordando os músculos aprisionados nas noites anteriores no hospital. Sorri e canta. Sorri e encontra sorrisos brancos de volta. Sorri e acha cúmplices para sua euforia.
Uma pausa.
Na pequena cozinha dois homens chupam laranja. Ela também quer uma metade pois sente que já bebeu bastante. Conversou com muitas pessoas, brincou, falou sério, disse bobagens, riu e fez rir, mas não pode passar da conta. Não. Não é bêbada que quer ficar. Apenas busca aquele descomprometimento que o álcool proporciona.
A conversa é recheada de malícia, a laranja descascada é artifício para olhares, palavras de duplo sentido, frases metafóricas, despertando a libido entre ela e o outro, o desconhecido simpático, de olhar desejante. O Ego aumenta com o comentário do amigo: Mas ela tem olhos lindos! Você viu? São azuis demais.Risos... Sim, ela tinha certeza que o outro já havia descoberto seu olhar e respondia com olhos verdes como ondas que a invadiam. Era importante para ela esse desejo implícito, esse tesão masculino, para tira-la do inferno dos dias anteriores. Foi audaciosa no falar, profunda no olhar, uma mulher livre, ciente do seus encantos maduros ao homem mais jovem que respondia contente ao seu apelo
Aquele diálogo de sedução mútua é interrompido com a chegada do dono da casa. Fundador da escola de samba do Nenê, figura magra, andar alquebrado, os cabelos brancos, soltos, cobertos em parte por um daqueles gorros africanos, o velho sambista recebe os cumprimentos e senta na mesa para chupar laranjas também. É como a chegada de uma entidade. A conversa muda, o tema é música. Ele canta o samba que perdeu na escola, fala da influência da poder econômico nos carnavais paulistas, da necessidade das escolas se adaptarem aos novos tempos, de um certo desencanto, e quando ela dá por si, está falando versos, desafiada pelo poeta popular. Um pouco nervosa consegue improvisar algumas rimas e a aprovação dele soa como aplausos. É uma conversa de mestre e discípulos, todos escutam encantados.
O burburinho lá fora chama sua atenção. Chegou um dos papas do banjo e cavaquinho. Todos querem ouvi-lo, e o quintal enche-se da melodia tirada por seus dedos mágicos. Ela, atenta, escuta, fecha os olhos, é só música.
Um dos homens com quem conversava vem se despedir. Atrás, o desconhecido interessante. Recebe um beijo na face, depois outro na boca. De leve, tímido, macio. Sua voz fala a seu ouvido: Não esqueci a conversa da cozinha, precisamos termina-la. Você tem cartão?
Como tantas vezes, é pega de surpresa e espantada diz: não. Sabe que é um não que soa como uma barreira intransponível. O homem não diz nada. Um último abraço. Sai.
Na volta, as risadas das amigas: Mas você é muito boba! Não ter cartão não significa não ter telefone. Por que faz isso?Ela ri. Está acostumada a jogar fora as oportunidades de prazer, ficando apenas com as lembranças. E, na verdade, naquela noite queria apenas ter a felicidade transmutada em samba.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Ainda os Haikais...


I.
silêncio de pássaros
primavera escondida
no asfalto molhado
II.
acordei border
bordei meu nome no céu
sol se escondeu
III.
chuva cinza no ar
torneira de água aberta
janela fechada
IV.
garoa fina
tarde monótona e fria
cigarro comprado
V.
entre nuvens cinzas
o sol - criança engatinha
quer passear no céu.
VI.
sol apaixonado
na tarde iluminada
sonhos refeitos
VII.
amanheceu enfim
burburinho azul na árvore
maritacas no ar

Chamado


Uma voz fala aos meus ouvidos
é uma voz pausada
me cala...
Uma voz fala a minha alma
é uma voz terna
me acalma...
Uma voz fala a meu desejo
é uma voz rouca
me indaga...
Uma voz fala a meus instintos
é uma voz quente
me inflama...
Uma voz manda em meus atos
é uma voz lasciva
me excita...
Uma voz me toma inteira
é uma voz ousada
me invade...
Uma voz ressoa em meu ventre
é uma voz forte
me traga..
Uma voz fica em meu corpo
é uma voz que amo
me chama...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Mudez


Abandonou a rima
Fechou-se em aspas
Expressão branda
se calou   
Disse adeus aos versos
Perdeu-se em reticências
 
Expressão vazia
a poesia não mais a encontrou