sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Natal

E agora
que chegou o natal
vou me dar de presente

as amizades que conquistei
o amor de meu filho
e a alegria de viver

E agora
que chegou o natal
vou chamar a lua
pra iluminar tua noite
encontrar uma estrela guia
pra brilhar em teu olhar
e trazer o menino-deus
pra inundar de paz
teu coração.





domingo, 18 de novembro de 2012

e é sempre na mente
 a pergunta
(sobre)viver
sem saber ao certo
se consigo ser

e vem sempre a dúvida
se vale a pena
insistir na busca
procurar o novo
ou desistir de vez

e a realidade chega
sussurrando insidiosa
que nada há
além do tédio
o tédio imenso
 gêmeo
desse feriado sem fim...


.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Aniversário

Quando criança
acordava alegre de madrugada
e pensava que banda  à janela
com seus hinos e clarins
anunciava ao mundo
o dia de meus anos

Ingênua
amanhecia feliz

Hoje
acordo devagar
não há banda nem hinos
apenas o silêncio da manhã
conta-me que o tempo passou
a ingenuidade se foi
a infância acabou

mas será que esse pássaro  lá fora
está cantando para mim?

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Eros e Psiquê

Uma pluma pousou em mim
acariciou minh'alma
desembaraçou meus nós 
fez calar meus medos
e  me encantou


Fiapo de algodão doce
deixou cair em mim
um pingo de seu mel


Sussurei seu nome:
 Eros
Respondeu-me:
Psiquê.



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

E de início
eram apenas  borboletas no estômago
mas voaram até a mente
e transformaram-se em grilos...

Durma-se com um barulho desse!

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Crônica da tristeza anunciada


Era uma tristeza fina, aquela  
parecia a primeira ruga
 imperceptível na face
profunda na descoberta do espelho
tímida como o primeiro pingo de chuva
perdido na secura de dunas do deserto

Tristeza de náufrago aflito
afogando-se em tempestade
sem encontrar o rumo da praia

Uma tristeza ciente de seu poder
pronta a romper o frágil cordão da alegria
construído a duras penas
agora, destroçado sem dó
nos descaminhos do amor.

(por que a lembrança da tartaruga da infância
movendo-se vagamente no meio da folhagem
no fundo do jardim?)

( tela - Magritte)












domingo, 16 de setembro de 2012

Noite de domingo

Que tristeza é essa
de fundo de poço
de botequim de quinta
filosofia barata
que em mim colou?

O que fazer com esse peito
em pranto
se  nicotina não basta
alcool não chega
para preencher esse vazio
em que se instalou a dor?

E esse fantasma
 assombrando a mente
 em que brilham os cacos
desse amor opaco
que em mim restou

Nem mesmo a lua
surgiu à janela
para atenuar o pranto
desse desamor.









(ilustração - Magritte)



Ouvindo Piazzolla

O (re)despertar do amor
dói.

Não posso
acordar sentimentos
deixá-los soltos por aí.

Sem destinatário
são presas fáceis
de palavras vãs
que os destroem sem pudor.

Guardá-los em mim
tão frágeis
Não posso.

Desatinam
entrelaçam-se em nós
na garganta
soltam lavas-lágrimas
no olhar.

No domingo envelhecido
Piazzolla chora comigo

e meu  amor (re)nascido
ecoa... 
"Quereme así, piantao, piantao, piantao..."

(Ilustração: Munch)


domingo, 9 de setembro de 2012

O baterista

O bar ainda estava vazio quando chegamos.
No palco, o casal  de músicos que gosto. Ela com sua voz melodiosa, ele,dedilhando o violão, sintonia perfeita.
O baterista, não conheço. Observo curiosa.
A expressão do homem é dura. Algumas rugas na face, nenhum sorriso nos lábios, seus músculos faciais estão imóveis. Lembra os músicos experientes da noite, acostumados com o burburinho, meio indiferentes à plateia. Deve ser dos bons, penso.
Volto-me para suas mãos. Por que me sinto fascinada por elas? São imãs, atraindo meu olhar. Mãos de músicos parecem independentes do corpo, movimentam-se por seus instrumentos tirando deles a essência do som. Passeiam pela melodia da mesma forma como devem passear à beira-mar, sentindo a brisa no rosto. Enfeitiçam-me.
As do baterista desconhecido guiam as baquetas, seguram o ritmo, ganham força, incendeiam o som. Pouco a pouco, suavemente, acompanham as notas, acariciam as caixas, acordam os pratos, murmuram uma canção de amor.
Por alguns momentos, vislumbro apenas o profissional da noite, a facilidade do ir e vir dos movimentos,  quase mecânicos, e um leve ar de tédio na face Em que pensará o baterista, enquanto suas mãos tocam e vão contando das noites, dos bares, dos palcos e bailes, marcando o compasso da dança de tantos encontros e desencontros da vida?
Seu olhar é soturno, gelado. Vaga pelo espaço e se detem no meu.  Perscuta, inquire, aprofunda e me invade. Faz um contraponto silencioso à bateria que domina.
Há algo inquietante nele, algo que me prende e afasta. Fecho os olhos e o som das baquetas é igual ao pulsar das minhas veias. Intenso. Deixo escorrer a música por meu corpo e, por um instante, fujo para o infinito, único lugar em que a música se torna extensão daquele olhar. Vivo aquele momento antes do retorno à realidade, à conversa com os amigos, às brincadeiras, e ao sorriso solto aos conhecidos.
Peço uma bebida ao garçom e viro uma mera frequentadora do bar.
Ao longe, ouço um baterista desconhecido a me tocar.

 







 





 .

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Insônia

descerra os olhos na noite

 e a falta da lua
projeta em sua face
o breu

apenas o silêncio gelado
da ausência

não há pássaros noturnos
gatos em cio
ou cães assustados
na rua

Ao longe
cristais de gelo nas flores anunciam
a melancolia do amanhecer


(Tela - Munch)

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Sou mulher de beiradas

Pânico senti
ao fincar os pés
no ponto central da América do Sul

Mas não fico ao longe
quero estar ali
 no limite
entre o  entrar e o sair
no horizonte
entre o mar e o céu
no lusco-fusco
entre o dia e a noite
no meio fio
entre o rebanho
que segue a estrada
e a rês desgarrada
que se perde nas trilhas


É  meu lugar
o exato ponto
da linha tênue
que separa o racional do infinito.








terça-feira, 1 de maio de 2012

as nuvens da noite

sob o olhar da lua
nuvens brancas
tal garças leves
passeiam
pelo céu noturno

tal pássaros alegres
voam rápidas
pelo horizonte ao fundo

da janela do quarto
acompanho o compasso
da metamorfose  celeste

um chumaço de algodão branco...
uma cortina de fumaça...
um novelo de lã alvo...

distrai-me a alma
o movimento das nuvens

e distraída
quase nuvem
em meu universo
existencial
meu ollhar brilha
ao cruzar docemente
com o olhar da lua...





terça-feira, 24 de abril de 2012

de desertos...

Em meu deserto afetivo
há um vulto distante
que mais parece miragem
ao sol a pino do dia
ou em noites de mil estrelas
com o luar a espiar

Em meu deserto afetivo
tempestades de areia
enfrento
sigo por dunas profundas
desfaleço
pés descalços dormentes
levanto
sentindo no rosto o talho
que o vento cortante me traz

Em meu deserto afetivo
sempre a figura de um homem
me força a andar
acena tranquilo ao longe
com seu oásis  de águas claras
e palmeiras verdes
onde me aguardará.

domingo, 15 de abril de 2012

Diário de Leituras - a origem

Lendo sobre a exposição de Jorge Amado no Museu da Língua Portuguesa, fiquei pensando a importância que o escritor baiano teve na minha adolescência, em uma época sem televisão, na pequena cidade do interior paulista, em que o tédio das noites tranquilas se fazia presente e era substituído pelas viagens que fazia lendo seus livros.
 E pensando nisso, é nítido o papel que teve o Jeromão em minha vida. Jeromão  era professor de português, responsável pela formação da biblioteca do ginásio e por me abrir as portas da literatura brasileira.
Até então, meus hábitos de leitura, com exceção de Monteiro Lobato, cujos livros papai já comprara  toda a coleção para os filhos lerem, minha atenção era voltada para os livros de literatura estrangeira, capa preta, da biblioteca do Grêmio, a velha biblioteca do clube, mobiliada de forma austera, como devia ser uma biblioteca, as estantes altas, cheias de livros que eu ia escolhendo meio aleatoriamente, de autores ingleses, franceses e russos. Livros pesados, que me despertavam uma certa angústia ao ler, Sumerset Maugham, Flaubert, Tennesse Williams, ou acordavam a curiosidade da investigação de crimes com Agatha Christie ou as aventuras de Sherlock Holmes.É dessa época também a minha falta de interesse pela literatura russa. Talvez o fato de ser muito jovem para adentrar no mundo de Dostoiewski me tenha criado uma resistência nunca rompida, infelizmente, pelos grandes autores russos.
 Já a biblioteca do ginásio era clara, cheia de luz e ver aqueles livros chegando, as prateleiras lotando, era algo como uma nova luz a meu olhar voraz de leitora. Passei a povoar a mente com o novo universo que descobria passo a passo.
Fui apresentada a Graciliano Ramos, Jose Lins do Rego e Jorge Amado. Eram meus preferidos. Lia, lia, lia... Vidas Secas, Angústia, Menino de Engenho, Jubiabá, Suor, Terras do sem fim, tudo me encantava naquela descoberta de um Brasil novo, aprendendo ali a gostar do povo brasileiro, sementes lançadas sem eu saber, germinando na minha cabeça até florescerem em pensamentos contrários a poderosos e uma noção vaga de que deveria  lutar por um mundo menos desigual. Talvez, Jorge Amado tenha sido, mais do que os outros, o responsável também pela  minha parte festeira, alegre, cantante.
Só alguns anos depois, já longe de Igarapava, percorreria outros caminhos da literatura, mas o tripé, a base, o estímulo a leitura foi formado ali: casa -clube - ginásio.

sábado, 7 de abril de 2012

A vida vem em ondas


Ondas de preconceito,  intolerância, segregação, hordas de imbecis em meio à diversidade.
Ondas de carros, motos, pedestres,  a morte trafega  solta no trânsito da cidade.
Ondas de revoltas, ocupações,  gritos de excluídos num mundo de explorados.
Ondas de calor,  poluentes, devastação sombria do planeta terra  ainda habitável.
Ondas de tecnologia, sistemas, redes sociais e  visibilidade.
Ondas de (des)informação, propaganda,  manipulação de  mídias em falta com a realidade.
Ondas de ações, capital,  crises, bancos, lucros,  reina soberano o mercado.
Ondas de terror, guerras, repressão, extremistas sem lei em nome de Deus e do Estado.
Ondas de um  mundo global, sem muito sentido,  tsunamis sem piedade

E pensar que eu acreditava serem as ondas
Apenas as doces ondas verdes do mar...

 

Medo de escuro



Vaga-lume se escondeu
Negou-se a  iluminar minha noite
de breu. 
.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Recordações...

Noite tranquila...A cidade parece dormir nessa sexta-feira santa. Aos poucos, o som da bandinha invade o quarto. " Eu confio em Nosso Senhor...com fé, esperança e amor..." Involuntariamente, fico cantoralando a música, tirada lá do fundo da memória. Arquivada. Não esquecida.
Da janela, vejo os anjinhos, as velas, o caixão de Jesus, os fiéis cantando, a procissão  de " Senhor morto" chegando à igreja.
Não há como não lembrar da menina com a avó indo velar o caixão, olhando os panos roxos cobrindo as estátuas dos santos, contrita, rezando ao lado daquela avó tão querida. A tristeza da escultura de Nossa Senhora, mãe sofredora ao ver o filho morto ainda é viva em sua memória. Tanta dor naquele olhar...Queria que chegasse logo o domingo, para ver a igreja florida, os cânticos de alegria e Maria feliz.
A cultura cristã foi introjetada desde a infância, não há como reverter. Sim, já são outros, os olhos, sem ingenuidade, que veem hoje a instituição Igreja Católica, são outros, os olhos, sem pureza, agora, a fazer suas críticas ao Vaticano, ao Papa, à pedofilia que perpassa a Igreja, mas há uma recordação em que não entra a culpa do pecado, a necessidade de cumprir as regras impostas, as proibições ao prazer da vida. Não existe mais aquele Deus -Vingador, Ele se transformou num Deus-Criador. Parece mais com uma compreensão da existência do espiritual, que nem chega a ser uma fé inabalável, mas que extrai o princípio principal, norteador para ela durante toda a vida: " Amai-vos uns aos outros e sereis filhos meus". E é esse o sentido que a menina-mulher vai dar ao Domingo da Ressusceição.Feliz Páscoa!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Noites no facebook

 Dia internacional da mulher 
e por falar em mulher
que a lua cheia na janela
estenda sua luz sobre todas elas
 ...
Voltando do Ponto Chic
lua cheia sobre a igreja
amigos falando no bar
momentos de paz
...
 Depois do bar
ah... o silêncio da volta
depois de tanta música
não é triste
mas quero o som do mar
para adormecer...
...
 Chegando de madrugada

Agora dormir
o sono dos justos
aquele em que adormecer
é apenas um detalhe
para quem quer sonhar
...
 Entardecer de um domingo qualquer

sombras silenciosas
descerram o véu da noite
solidão à espreita
...
Ouvindo música.
Em tardes cor de laranja e ar seco/  música é gota d’água caindo na alma...


quinta-feira, 1 de março de 2012

Palavras

houve um tempo
em que escrevia
amor
depois veio o tempo
da paixão

em épocas de recusa
 era
desilusão
nas de mais libido
reinava soberana
 perversão

com o tempo
nasceu com força
a palavra
filho
acompanhada  sempre
 de sorriso
que saia do rosto
formando
letra a letra
a felicidade
de ser mãe.

hoje
misturo todas
e faço delas
uma só
a palavra mágica
vida
antes que chegue
a palavra
fim

sábado, 25 de fevereiro de 2012

São Paulo/ sábado à noite

casa quieta
    mente à deriva

 a chuva
 vai...
 a chuva
 vem...

encharca e seca
a noite vazia

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A solidão é apenas o vazio de quem desacredita na vida...mas passa.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

à tarde...


nas asas das letras
voo
na esteira das palavras
viajo
 e nos versos pingados
levo a quem quero
a saudade...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Domingo em São Paulo

Pela janela aberta
Um sol claro me espia
Lá embaixo
Azaléias e girassóis florescem
Na banca da esquina

Não há canto de pássaros
Mas dobram os sinos da igreja
Lembrando aos fiéis
A hora da missa

Sem carros
Sem buzinas
A molecada joga bola
No meio da avenida

No cortiço ao lado
A mulher esfrega no tanque
A roupa da dura lida

E o velho jornaleiro
Arruma as notícias
Do nosso dia a dia

Corre um homem na contramão
A mulher caminha na guia
De bicicleta, feliz
O atleta atravessa a rua
Seguindo pro minhocão

Do alto da minha janela
São Paulo vira província
Não há assalto no asfalto
Nem violência no ar

Passeia a vida sem pressa
No domingo sem correria...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Para o Zé Carlos...

Não... eu não o conhecia direito, nem era sua amiga íntima. Não sabia dos seus sonhos, de suas frustações, de seus amores e desencontros na vida. Só soube que era mineiro hoje. Foi para lá que ele foi. Não sei o nome da cidade. E não vou ficar aqui imaginando que é aquela cidadezinha histórica, ou no sopé daquela montanha entre tantas que existem em Minas. Não... Eu não o conhecia. Não sabia  porque viera para São Paulo, em que bairro vivia, sabia apenas que era longe, mas não sabia de suas namoradas, para que time torcia, ou em quem votava. Ah... mas sabia que fumava cigarro paraguaio, aquele que me ofereceu com a solidariedade de fumantes que conhecem a necessidade do vício e que timidamente falou:
- Ah.. mas são paraguaios, quer assim mesmo?
Conhecia seu sorriso, que podia até encobrir alguma dor, mas que estava sempre em sua face. Conhecia seu olhar matreiro, observando tudo que se passava naquela portaria. Conheci seu gesto serviçal, que sempre me deixava sem graça ao abri a porta do elevador, apertar meu andar, sorrir, sei lá se por obrigação, mas sempre  tão natural. Conhecia suas brincadeiras tímidas, até conhecia seu lado solidário de após o trabalho ir com a senhora de outro andar ao banco, porque ela tinha lhe dito que não se sentia segura de ir sozinha. Ah... como rimos aquele dia, no Bradesco, eu brincando que estava na fila dos idosos porque era obesa, e ele dizendo que   já tinha entendido...Acho que me achava meio doida. Achava, não, sabia que sou mesmo. Talvez, isso tenha delineado o começo do elo e cumplicidade que nos unia. Ah... como gostava de encontrá-lo nas madrugadas que chegava meio bêbada, e era ele que estava ali, como um  guardião. Ah... como gostei do carinho que me tratou na madrugada insana, que precisava acudir minha irmã, e o taxi não chegava. Foi ele que  parou um desavisado que passou e me disse para não esperar o ligue taxi. Preocupado com quem ele nem conhecia.
Em nossa última conversa, ficamos rindo muito, sobre futebol. E o assunto eram  o que eu ia fazer com as bombinhas que o Matheus me deu para soltar na vitória ou gol do Santos contra o Barcelona...
Muito bom conhecer um pouquinho do Zé. Pena, não ter deixado que nossa timidez pudesse   nos fazer aproximar mais.
Sei que a última torta de natal que comeu foi a que o Cassio escolheu. Não o resto, a torta inteira, que deixei lá para ele.
Hoje, fiquei triste porque ele se foi. Muito novo ainda. Em seus 42 anos, vai saber o tanto de sonhos que ainda tinha a realizar.
 Não... nem quero pensar nisso.
Só quero pensar que o Zé foi um sorriso que passou na minha vida...e meu coração se deixou levar...
 A portaria vai ficar mais triste agora...ou...sempre ficará iluminada por aquele brasileiro que viveu o tempo que lhe foi destinado na terra...

Um beijo, Zé...até...