Noite tranquila...A cidade parece dormir nessa sexta-feira santa. Aos poucos, o som da bandinha invade o quarto. " Eu confio em Nosso Senhor...com fé, esperança e amor..." Involuntariamente, fico cantoralando a música, tirada lá do fundo da memória. Arquivada. Não esquecida.
Da janela, vejo os anjinhos, as velas, o caixão de Jesus, os fiéis cantando, a procissão de " Senhor morto" chegando à igreja.
Não há como não lembrar da menina com a avó indo velar o caixão, olhando os panos roxos cobrindo as estátuas dos santos, contrita, rezando ao lado daquela avó tão querida. A tristeza da escultura de Nossa Senhora, mãe sofredora ao ver o filho morto ainda é viva em sua memória. Tanta dor naquele olhar...Queria que chegasse logo o domingo, para ver a igreja florida, os cânticos de alegria e Maria feliz.
A cultura cristã foi introjetada desde a infância, não há como reverter. Sim, já são outros, os olhos, sem ingenuidade, que veem hoje a instituição Igreja Católica, são outros, os olhos, sem pureza, agora, a fazer suas críticas ao Vaticano, ao Papa, à pedofilia que perpassa a Igreja, mas há uma recordação em que não entra a culpa do pecado, a necessidade de cumprir as regras impostas, as proibições ao prazer da vida. Não existe mais aquele Deus -Vingador, Ele se transformou num Deus-Criador. Parece mais com uma compreensão da existência do espiritual, que nem chega a ser uma fé inabalável, mas que extrai o princípio principal, norteador para ela durante toda a vida: " Amai-vos uns aos outros e sereis filhos meus". E é esse o sentido que a menina-mulher vai dar ao Domingo da Ressusceição.Feliz Páscoa!

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