O baterista
O bar ainda estava vazio quando chegamos.
No palco, o casal de músicos que gosto. Ela com sua voz melodiosa, ele,dedilhando o violão, sintonia perfeita.
O baterista, não conheço. Observo curiosa.
A expressão do homem é dura. Algumas rugas na face, nenhum sorriso nos lábios, seus músculos faciais estão imóveis. Lembra os músicos experientes da noite, acostumados com o burburinho, meio indiferentes à plateia. Deve ser dos bons, penso.
Volto-me para suas mãos. Por que me sinto fascinada por elas? São imãs, atraindo meu olhar. Mãos de músicos parecem independentes do corpo, movimentam-se por seus instrumentos tirando deles a essência do som. Passeiam pela melodia da mesma forma como devem passear à beira-mar, sentindo a brisa no rosto. Enfeitiçam-me.
As do baterista desconhecido guiam as baquetas, seguram o ritmo, ganham força, incendeiam o som. Pouco a pouco, suavemente, acompanham as notas, acariciam as caixas, acordam os pratos, murmuram uma canção de amor.
Por alguns momentos, vislumbro apenas o profissional da noite, a facilidade do ir e vir dos movimentos, quase mecânicos, e um leve ar de tédio na face Em que pensará o baterista, enquanto suas mãos tocam e vão contando das noites, dos bares, dos palcos e bailes, marcando o compasso da dança de tantos encontros e desencontros da vida?
Seu olhar é soturno, gelado. Vaga pelo espaço e se detem no meu. Perscuta, inquire, aprofunda e me invade. Faz um contraponto silencioso à bateria que domina.
Há algo inquietante nele, algo que me prende e afasta. Fecho os olhos e o som das baquetas é igual ao pulsar das minhas veias. Intenso. Deixo escorrer a música por meu corpo e, por um instante, fujo para o infinito, único lugar em que a música se torna extensão daquele olhar. Vivo aquele momento antes do retorno à realidade, à conversa com os amigos, às brincadeiras, e ao sorriso solto aos conhecidos.
Peço uma bebida ao garçom e viro uma mera frequentadora do bar.
Ao longe, ouço um baterista desconhecido a me tocar.
.
Entrei distraída na Caixa de Achados & Perdidos. Nunca mais me encontrei.
domingo, 9 de setembro de 2012
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Insônia
descerra os olhos na noite
e a falta da lua
projeta em sua face
o breu
apenas o silêncio gelado
da ausência
não há pássaros noturnos
gatos em cio
ou cães assustados
na rua
Ao longe
cristais de gelo nas flores anunciam
a melancolia do amanhecer
(Tela - Munch)
e a falta da lua
projeta em sua face
o breu
apenas o silêncio gelado
da ausência
não há pássaros noturnos
gatos em cio
ou cães assustados
na rua
Ao longe
cristais de gelo nas flores anunciam
a melancolia do amanhecer
(Tela - Munch)
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Sou mulher de beiradas
Pânico senti
ao fincar os pés
no ponto central da América do Sul
Mas não fico ao longe
quero estar ali
no limite
entre o entrar e o sair
no horizonte
entre o mar e o céu
no lusco-fusco
entre o dia e a noite
no meio fio
entre o rebanho
que segue a estrada
e a rês desgarrada
que se perde nas trilhas
É meu lugar
o exato ponto
da linha tênue
que separa o racional do infinito.
Pânico senti
ao fincar os pés
no ponto central da América do Sul
Mas não fico ao longe
quero estar ali
no limite
entre o entrar e o sair
no horizonte
entre o mar e o céu
no lusco-fusco
entre o dia e a noite
no meio fio
entre o rebanho
que segue a estrada
e a rês desgarrada
que se perde nas trilhas
É meu lugar
o exato ponto
da linha tênue
que separa o racional do infinito.
terça-feira, 1 de maio de 2012
as nuvens da noite
sob o olhar da lua
nuvens brancas
tal garças leves
passeiam
pelo céu noturno
tal pássaros alegres
voam rápidas
pelo horizonte ao fundo
da janela do quarto
acompanho o compasso
da metamorfose celeste
um chumaço de algodão branco...
uma cortina de fumaça...
um novelo de lã alvo...
distrai-me a alma
o movimento das nuvens
e distraída
quase nuvem
em meu universo
existencial
meu ollhar brilha
ao cruzar docemente
com o olhar da lua...
nuvens brancastal garças leves
passeiam
pelo céu noturno
tal pássaros alegres
voam rápidas
pelo horizonte ao fundo
da janela do quarto
acompanho o compasso
da metamorfose celeste
um chumaço de algodão branco...
uma cortina de fumaça...
um novelo de lã alvo...
distrai-me a alma
o movimento das nuvens
e distraída
quase nuvem
em meu universo
existencial
meu ollhar brilha
ao cruzar docemente
com o olhar da lua...
terça-feira, 24 de abril de 2012
de desertos...
Em meu deserto afetivo
há um vulto distante
que mais parece miragem
ao sol a pino do dia
ou em noites de mil estrelas
com o luar a espiar
Em meu deserto afetivo
tempestades de areia
enfrento
sigo por dunas profundas
desfaleço
pés descalços dormentes
levanto
sentindo no rosto o talho
que o vento cortante me traz
Em meu deserto afetivo
sempre a figura de um homem
me força a andar
acena tranquilo ao longe
com seu oásis de águas claras
e palmeiras verdes
onde me aguardará.
há um vulto distante
que mais parece miragem
ao sol a pino do dia
ou em noites de mil estrelas
com o luar a espiar
Em meu deserto afetivo
tempestades de areia
enfrento
sigo por dunas profundas
desfaleço
pés descalços dormentes
levanto
sentindo no rosto o talho
que o vento cortante me traz
Em meu deserto afetivo
sempre a figura de um homem
me força a andar
acena tranquilo ao longe
com seu oásis de águas claras
e palmeiras verdes
onde me aguardará.
domingo, 15 de abril de 2012
Diário de Leituras - a origem
Lendo sobre a exposição de Jorge Amado no Museu da Língua Portuguesa, fiquei pensando a importância que o escritor baiano teve na minha adolescência, em uma época sem televisão, na pequena cidade do interior paulista, em que o tédio das noites tranquilas se fazia presente e era substituído pelas viagens que fazia lendo seus livros.
E pensando nisso, é nítido o papel que teve o Jeromão em minha vida. Jeromão era professor de português, responsável pela formação da biblioteca do ginásio e por me abrir as portas da literatura brasileira.
Até então, meus hábitos de leitura, com exceção de Monteiro Lobato, cujos livros papai já comprara toda a coleção para os filhos lerem, minha atenção era voltada para os livros de literatura estrangeira, capa preta, da biblioteca do Grêmio, a velha biblioteca do clube, mobiliada de forma austera, como devia ser uma biblioteca, as estantes altas, cheias de livros que eu ia escolhendo meio aleatoriamente, de autores ingleses, franceses e russos. Livros pesados, que me despertavam uma certa angústia ao ler, Sumerset Maugham, Flaubert, Tennesse Williams, ou acordavam a curiosidade da investigação de crimes com Agatha Christie ou as aventuras de Sherlock Holmes.É dessa época também a minha falta de interesse pela literatura russa. Talvez o fato de ser muito jovem para adentrar no mundo de Dostoiewski me tenha criado uma resistência nunca rompida, infelizmente, pelos grandes autores russos.
Já a biblioteca do ginásio era clara, cheia de luz e ver aqueles livros chegando, as prateleiras lotando, era algo como uma nova luz a meu olhar voraz de leitora. Passei a povoar a mente com o novo universo que descobria passo a passo.
Fui apresentada a Graciliano Ramos, Jose Lins do Rego e Jorge Amado. Eram meus preferidos. Lia, lia, lia... Vidas Secas, Angústia, Menino de Engenho, Jubiabá, Suor, Terras do sem fim, tudo me encantava naquela descoberta de um Brasil novo, aprendendo ali a gostar do povo brasileiro, sementes lançadas sem eu saber, germinando na minha cabeça até florescerem em pensamentos contrários a poderosos e uma noção vaga de que deveria lutar por um mundo menos desigual. Talvez, Jorge Amado tenha sido, mais do que os outros, o responsável também pela minha parte festeira, alegre, cantante.
Só alguns anos depois, já longe de Igarapava, percorreria outros caminhos da literatura, mas o tripé, a base, o estímulo a leitura foi formado ali: casa -clube - ginásio.
E pensando nisso, é nítido o papel que teve o Jeromão em minha vida. Jeromão era professor de português, responsável pela formação da biblioteca do ginásio e por me abrir as portas da literatura brasileira.
Até então, meus hábitos de leitura, com exceção de Monteiro Lobato, cujos livros papai já comprara toda a coleção para os filhos lerem, minha atenção era voltada para os livros de literatura estrangeira, capa preta, da biblioteca do Grêmio, a velha biblioteca do clube, mobiliada de forma austera, como devia ser uma biblioteca, as estantes altas, cheias de livros que eu ia escolhendo meio aleatoriamente, de autores ingleses, franceses e russos. Livros pesados, que me despertavam uma certa angústia ao ler, Sumerset Maugham, Flaubert, Tennesse Williams, ou acordavam a curiosidade da investigação de crimes com Agatha Christie ou as aventuras de Sherlock Holmes.É dessa época também a minha falta de interesse pela literatura russa. Talvez o fato de ser muito jovem para adentrar no mundo de Dostoiewski me tenha criado uma resistência nunca rompida, infelizmente, pelos grandes autores russos.
Já a biblioteca do ginásio era clara, cheia de luz e ver aqueles livros chegando, as prateleiras lotando, era algo como uma nova luz a meu olhar voraz de leitora. Passei a povoar a mente com o novo universo que descobria passo a passo.
Fui apresentada a Graciliano Ramos, Jose Lins do Rego e Jorge Amado. Eram meus preferidos. Lia, lia, lia... Vidas Secas, Angústia, Menino de Engenho, Jubiabá, Suor, Terras do sem fim, tudo me encantava naquela descoberta de um Brasil novo, aprendendo ali a gostar do povo brasileiro, sementes lançadas sem eu saber, germinando na minha cabeça até florescerem em pensamentos contrários a poderosos e uma noção vaga de que deveria lutar por um mundo menos desigual. Talvez, Jorge Amado tenha sido, mais do que os outros, o responsável também pela minha parte festeira, alegre, cantante.
Só alguns anos depois, já longe de Igarapava, percorreria outros caminhos da literatura, mas o tripé, a base, o estímulo a leitura foi formado ali: casa -clube - ginásio.
sábado, 7 de abril de 2012
A vida vem em ondas
Ondas de preconceito, intolerância, segregação, hordas de imbecis em meio à diversidade.
Ondas de carros, motos, pedestres, a morte trafega solta no trânsito da cidade.
Ondas de revoltas, ocupações, gritos de excluídos num mundo de explorados.
Ondas de calor, poluentes, devastação sombria do planeta terra ainda habitável.
Ondas de revoltas, ocupações, gritos de excluídos num mundo de explorados.
Ondas de calor, poluentes, devastação sombria do planeta terra ainda habitável.
Ondas de tecnologia, sistemas, redes sociais e visibilidade.
Ondas de (des)informação, propaganda, manipulação de mídias em falta com a realidade.
Ondas de ações, capital, crises, bancos, lucros, reina soberano o mercado.
Ondas de terror, guerras, repressão, extremistas sem lei em nome de Deus e do Estado.Ondas de um mundo global, sem muito sentido, tsunamis sem piedade
E pensar que eu acreditava serem as ondas
Apenas as doces ondas verdes do mar...
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Recordações...
Noite tranquila...A cidade parece dormir nessa sexta-feira santa. Aos poucos, o som da bandinha invade o quarto. " Eu confio em Nosso Senhor...com fé, esperança e amor..." Involuntariamente, fico cantoralando a música, tirada lá do fundo da memória. Arquivada. Não esquecida.
Da janela, vejo os anjinhos, as velas, o caixão de Jesus, os fiéis cantando, a procissão de " Senhor morto" chegando à igreja.
Não há como não lembrar da menina com a avó indo velar o caixão, olhando os panos roxos cobrindo as estátuas dos santos, contrita, rezando ao lado daquela avó tão querida. A tristeza da escultura de Nossa Senhora, mãe sofredora ao ver o filho morto ainda é viva em sua memória. Tanta dor naquele olhar...Queria que chegasse logo o domingo, para ver a igreja florida, os cânticos de alegria e Maria feliz.
A cultura cristã foi introjetada desde a infância, não há como reverter. Sim, já são outros, os olhos, sem ingenuidade, que veem hoje a instituição Igreja Católica, são outros, os olhos, sem pureza, agora, a fazer suas críticas ao Vaticano, ao Papa, à pedofilia que perpassa a Igreja, mas há uma recordação em que não entra a culpa do pecado, a necessidade de cumprir as regras impostas, as proibições ao prazer da vida. Não existe mais aquele Deus -Vingador, Ele se transformou num Deus-Criador. Parece mais com uma compreensão da existência do espiritual, que nem chega a ser uma fé inabalável, mas que extrai o princípio principal, norteador para ela durante toda a vida: " Amai-vos uns aos outros e sereis filhos meus". E é esse o sentido que a menina-mulher vai dar ao Domingo da Ressusceição.Feliz Páscoa!
Da janela, vejo os anjinhos, as velas, o caixão de Jesus, os fiéis cantando, a procissão de " Senhor morto" chegando à igreja.
Não há como não lembrar da menina com a avó indo velar o caixão, olhando os panos roxos cobrindo as estátuas dos santos, contrita, rezando ao lado daquela avó tão querida. A tristeza da escultura de Nossa Senhora, mãe sofredora ao ver o filho morto ainda é viva em sua memória. Tanta dor naquele olhar...Queria que chegasse logo o domingo, para ver a igreja florida, os cânticos de alegria e Maria feliz.
A cultura cristã foi introjetada desde a infância, não há como reverter. Sim, já são outros, os olhos, sem ingenuidade, que veem hoje a instituição Igreja Católica, são outros, os olhos, sem pureza, agora, a fazer suas críticas ao Vaticano, ao Papa, à pedofilia que perpassa a Igreja, mas há uma recordação em que não entra a culpa do pecado, a necessidade de cumprir as regras impostas, as proibições ao prazer da vida. Não existe mais aquele Deus -Vingador, Ele se transformou num Deus-Criador. Parece mais com uma compreensão da existência do espiritual, que nem chega a ser uma fé inabalável, mas que extrai o princípio principal, norteador para ela durante toda a vida: " Amai-vos uns aos outros e sereis filhos meus". E é esse o sentido que a menina-mulher vai dar ao Domingo da Ressusceição.Feliz Páscoa!
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Noites no facebook
Dia internacional da mulher
e por falar em mulher
que a lua cheia na janela
estenda sua luz sobre todas elas
...
Voltando do Ponto Chic
lua cheia sobre a igreja
amigos falando no bar
momentos de paz
...
Depois do bar
ah... o silêncio da volta
depois de tanta música
não é triste
mas quero o som do mar
para adormecer...
...
Chegando de madrugada
Agora dormir
o sono dos justos
aquele em que adormecer
é apenas um detalhe
para quem quer sonhar
...
Entardecer de um domingo qualquer
sombras silenciosas
descerram o véu da noite
solidão à espreita
...
Ouvindo música.
Em tardes cor de laranja e ar seco/ música é gota d’água caindo na alma...
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