sexta-feira, 22 de abril de 2011

A la Eugénio de Andrade

Foi o sorriso
Aquele sorriso suave
Espraiado de sol
Clareou meu dia!

Era um sorriso doce
Aquele sorriso aberto
Cabia nele
Todo som da alegria!

Foi o sorriso
Aquele sorriso negro
Que ao sorrir pra mim
Transformou de vez minha vida!


terça-feira, 5 de abril de 2011

Ao amanhecer


O sol pulou o muro
Abriu as janelas
Subiu pelas paredes
Brincou pelo tapete
Disse-me _Bom dia!
Sorri
Ao estender-lhe a mão.

ilustração: Miguel Costa

sexta-feira, 18 de março de 2011

Resposta a um amigo



Ele perguntou sobre seus sonhos. Tivera asas para alcançá-lo, nesses anos todos? A realidade virou flecha em sua pele. Nunca tivera um sonho prá valer. Sua vida tinha sido construída em cima de pequenas realizações do dia a dia. Nem mesmo a maternidade lhe parecia ter sido a realização do grande sonho. Adorava o filho, mas faltava-lhe ainda alguma coisa. Não tinha sido infeliz. Não. Sempre soubera fazer do dia a dia um sorriso. Da noite, uma alegria. Onde teria perdido o sonho? Por mais que puxasse os arquivos da memória, não o encontrava. Buscava nas cenas de infância. Uma criança a olhar as nuvens deitada no quintal. Será que sonhava em ser como elas? Lindas...brancas...mutantes? Procurava na adolescência. Uma mocinha descobrindo a biblioteca do clube , na cidadezinha perdida no mapa, lendo, lendo todos aqueles livros de capa dura, preta. Quanto mistério desvendado pelas palavras. Será que o sonho era escrever algo como o que lia? Recordava a mocidade. Uma jovem cheia de idéias de igualdade na cabeça, cheia de esperanças que o mundo seria mais justo. Será que o sonho era amar e ser amada para sempre por aquele estudante que entrara em sua vida, mistura de revolucionário com artista de cinema, tamanha sua beleza? Chegou à idade madura ainda sem saber. Lembrava-se de seu entusiasmo em dar aulas, fosse o retorno grande ou pequeno. Será que aquela relação baseada em conhecimento e afetividade, lhe dava a idéia de viver um sonho? E agora? O olhar continuava perdido um pouco no horizonte, em busca de arco íris, talvez. A mente ainda buscava ansiosa pela leitura do que lhe caía às mãos. O amor lhe parecia distante, mas sempre o buscava, mesmo que fosse por linhas tortas. E a pergunta continuava martelando sua cabeça: Qual era o grande sonho? Só se fosse aquela busca incessante que a perseguira pela vida toda, deixando –a sempre confusa, sem que soubesse definir o que era. Teria tempo de saber?

Considerações às vésperas de aniversário



Você percebe que é considerada quase uma idosa:
1.quando sai de casa feliz, com sua calça jeans, camiseta, cabelo espetado, olhos brilhantes, pronta para enfrentar  oito horas de trabalho estafante e no ponto do ônibus um jovem, nem tão jovem assim,  insiste para você entrar primeiro no ônibus e fica esperando pacientemente que você tome essa atitude, como se você estivesse ali a passeio: poxa! você ainda trabalha mais do que ele.
2. quando está pensando o tanto que o novo trabalho te faz ficar sedentária , sentada na frente do computador o dia inteiro e um jovem, nem tão jovem assim, insiste em te ceder o lugar, não se importando com sua negativa, como se a negativa expressasse apenas uma relutância para não incomodá-lo, porque para ele você está com ar de cansaço e não aguenta ir de pé, sem ter que se apertar com a pessoa ao lado ao sentar-se: poxa! nunca pensei que jovem politicamente correto fosse tão chato.
3. quando ao ser chamada pelo apelido, porque foi com ele que você se apresentou, tão acostumada está com ele, e um jovem, nem tão jovem assim, ridiculamente te chama pelo mesmo, acrescentando um Senhora na frente em sinal de respeito: poxa! a emenda é pior do que o soneto: ouvir Dona Pixu não há quem aguente.
4. quando vê o espanto do médico jovem, nem tão jovem assim, ao saber que você não só gosta de samba e carnaval, mas vai a bares sambar e ao sambódromo desfilar na sua escola de samba: poxa! mal sabe ele os lugares que você frequenta.
5. quando você está no bar tomando sua cerveja e os jovens companheiros do trabalho te oferecem caipirinha, achando que ao primeiro gole você vai ficar bêbada: poxa! eles nao fazem idéia do que foi sua geração.

Mas você percebe o tanto que ainda pode ser  jovem:

1. quando vê que teus preconceitos são muito menores e tuas idéias são tão menos moralistasdo que de jovens universitários: poxa! você continua sendo vanguarda no que se refere a saber viver a vida.
2. quando é rodeada por jovens em uma festa que te acham sábia, buscam tuas palavras, expressam sua admiração ao mesmo tempo que defendem suas idéias contigo de igual para igual: poxa você ainda sabe se comunicar com outras gerações
3. quando um homem diz que teus olhos enfeitiçam e  telefona cedinho para te acordar: poxa! não é que ele sabe a mulher que você é?

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

mudez

"...e sem saber o que dizer
pediu desculpas às borboletas..."

sábado, 16 de outubro de 2010

Samba em São Miguel... dois anos depois



Primavera gelada em São Paulo. Convite para feijoada e samba do outro lado da cidade, certeza de tarde gostosa, ela e a amiga rumam para a ZL. Dessa vez não erram o caminho, as avenidas não mais intermináveis,  o bairro menos pobre e a rua não  tão feia. Acostumou-se talvez. Sempre o primeiro impacto dói mais. Depois, banaliza-se.
O aniversariante está no portão, peito aberto aos abraços, sorriso largo no rosto. 
O quintal é o mesmo, apenas as árvores estão mais frondosas, a sombra mais acolhedora e a pitangueira carregadinha de pitangas maduras.
-Caipirinha de pitanga é muito boa! 
Na cozinha, a mãe da dona da casa conversa sobre pitangas, amoras, jabuticabas entre sorrisos e receitas. Impossível não associar a sua infância, a seu o quintal, aquelas árvores antigas,  ali, em roupagem nova.
Ela olha os músicos chegando, se achegando sob as árvores, com seus banjos, cuícas, pandeiros, timbas, bongôs, cavaquinhos e agogôs. O samba pede passagem no fundo do quintal.
Os amigos afetuosos, abraços e cantoria alegre, brincadeiras e falas sérias, afinal, o segundo turno para presidente está aí e as gozações de quem é mais à direita ou mais à esquerda, se da "zelite" ou do povão não dá margem a brigas, apenas a risadas. 
Feriado passando alegre, gente jovem, velhos, crianças, comunhão de seres ligados por algum elo do destino, que os faz se sentirem irmãos.
De onde vem esse sentimento de solidariedade gratuita, de participante de um mundo só, na diversidade das vidas ali? São estranhos, mas próximos.
A tarde cai. 
As primeiras sombras escondem a chegada da visita.

Ela não foi convidada. Trazida talvez pelo vento frio, pelo ar soturno da noite, entrou desapercebida, silenciosa, deslizou invisível por nós e subindo as escadas nos levou a Lourdes. 
Fim de festa, fim da vida.
Num minuto, num sopro, um coração deixou de bater.
Assim... levemente, como uma folha que cai,  um som deixou de tocar. 
Silêncio no quintal.
Descanse em paz, doce senhora.

eleições 2010


                              perdi 
o brilho da utopia do olhar
o sorriso aberto da esperança
a voz incendiária das grandes causas
a certeza da palavra verdade
e a fé na realização dos sonhos

será isso, envelhecer?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Para Lourdes



 Quintal em festa
Na pitanga madura
A doçura do teu olhar

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Em família

Gosto dessa noite fria
em que volto
às raízes
do que sou hoje.

Esse vinho quente
soltando a língua
em bobagens ditas
amaciando o sorriso
de cada um na mesa

Chega tranquilo
o amor 
nesse jantar de agosto
em que a verdade surge
sobre o que fomos
por quê?
e como

E nesse recordar de irmãs
fundem-se o olhar
do passado
com a alegria presente
de comemorar a vida

Avoé baco!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Perguntas...

Por que
este olhar tão frio
esta voz amarga
e a falta do sorriso
a te marcar a face?

O que te fez a vida
pra ficar cansado
sem querer  contato
a procurar no sono
esquecer o afago
que tanto te falta?

O que te levou
a cruzar os braços
andar pesado
e passar batido
a pensar que a vida
é só desencontro?

O que fazer
pra te deixar menino
e perceber leveza
 nesta tarde cinza
sem teus desenganos?

ilustração: Munch