sexta-feira, 18 de março de 2011

Resposta a um amigo



Ele perguntou sobre seus sonhos. Tivera asas para alcançá-lo, nesses anos todos? A realidade virou flecha em sua pele. Nunca tivera um sonho prá valer. Sua vida tinha sido construída em cima de pequenas realizações do dia a dia. Nem mesmo a maternidade lhe parecia ter sido a realização do grande sonho. Adorava o filho, mas faltava-lhe ainda alguma coisa. Não tinha sido infeliz. Não. Sempre soubera fazer do dia a dia um sorriso. Da noite, uma alegria. Onde teria perdido o sonho? Por mais que puxasse os arquivos da memória, não o encontrava. Buscava nas cenas de infância. Uma criança a olhar as nuvens deitada no quintal. Será que sonhava em ser como elas? Lindas...brancas...mutantes? Procurava na adolescência. Uma mocinha descobrindo a biblioteca do clube , na cidadezinha perdida no mapa, lendo, lendo todos aqueles livros de capa dura, preta. Quanto mistério desvendado pelas palavras. Será que o sonho era escrever algo como o que lia? Recordava a mocidade. Uma jovem cheia de idéias de igualdade na cabeça, cheia de esperanças que o mundo seria mais justo. Será que o sonho era amar e ser amada para sempre por aquele estudante que entrara em sua vida, mistura de revolucionário com artista de cinema, tamanha sua beleza? Chegou à idade madura ainda sem saber. Lembrava-se de seu entusiasmo em dar aulas, fosse o retorno grande ou pequeno. Será que aquela relação baseada em conhecimento e afetividade, lhe dava a idéia de viver um sonho? E agora? O olhar continuava perdido um pouco no horizonte, em busca de arco íris, talvez. A mente ainda buscava ansiosa pela leitura do que lhe caía às mãos. O amor lhe parecia distante, mas sempre o buscava, mesmo que fosse por linhas tortas. E a pergunta continuava martelando sua cabeça: Qual era o grande sonho? Só se fosse aquela busca incessante que a perseguira pela vida toda, deixando –a sempre confusa, sem que soubesse definir o que era. Teria tempo de saber?

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