quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Em família

Gosto dessa noite fria
em que volto
às raízes
do que sou hoje.

Esse vinho quente
soltando a língua
em bobagens ditas
amaciando o sorriso
de cada um na mesa

Chega tranquilo
o amor 
nesse jantar de agosto
em que a verdade surge
sobre o que fomos
por quê?
e como

E nesse recordar de irmãs
fundem-se o olhar
do passado
com a alegria presente
de comemorar a vida

Avoé baco!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Perguntas...

Por que
este olhar tão frio
esta voz amarga
e a falta do sorriso
a te marcar a face?

O que te fez a vida
pra ficar cansado
sem querer  contato
a procurar no sono
esquecer o afago
que tanto te falta?

O que te levou
a cruzar os braços
andar pesado
e passar batido
a pensar que a vida
é só desencontro?

O que fazer
pra te deixar menino
e perceber leveza
 nesta tarde cinza
sem teus desenganos?

ilustração: Munch

quinta-feira, 25 de março de 2010

A serpente


Ela é bela. Esgueira-se por entre as folhas secas, ardilosa, misturando-se a elas. Arrasta-se dolente à espera da presa. Não tem pressa. Sabe que ela virá. Espreita apenas.
Aguarda tranquila a desprevenida, a distraída, que dará o passo em falso sem vê-la, imersa em seus sonhos.
Ah...o barulho das folhas secas escondendo o silvo mortal.
Atenta, apenas espera os pés descalços atraídos para o bote certeiro.

No silêncio do quarto, tua foto me sorri. Quase ouço um leve sibilar...

domingo, 21 de março de 2010



ahh...
O poema que dói não sai
fica incrustrado nas reentrâncias
dessa dor que se esconde
nos desvãos
da alma
que teima e teima
e teima em amar 

Ilustração: Munch

terça-feira, 2 de março de 2010

Classificados VII

Procura-se uma utopia para viver. Perdi as que me davam alma, tornando-me um zumbi na escuridão da noite...

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Como chuva ao entardecer

sou como a água da chuva
molhando teu corpo
caindo devagar
pingo
a
pingo
deslizando clara
 por teus poros
 teus pelos
escorregadia
vadia...
a te molhar com meu desejo...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Pensamento do dia




E quanto à dor
esquece


Enquanto há dor
adormece


ilustração: Munch

História de um assalto



Ela abriu a porta tranquilamente, pensando ser o amigo do filho, do segundo andar. Eles eram três, uma menina que mais parecia ser uma aluna sua, um rapazote nervoso e o mais velho, que lhe mostrou a arma.
Não acreditava que tinha bobeado tanto até ouvir a voz do rapaz:
_Por que não olha pelo olho mágico, tia, antes de abrir a porta?
_Ah! Pensei que fosse alguém conhecido.
_ Pois aprenda, tia, aquilo é para olhar, não é enfeite.
Queriam dinheiro. Artigo de luxo naquele fim de mês. Pensou, e agora? Disseram para se sentar no sofá e ficar quieta, sem gritar. Gritar? A única coisa que pensava era no seu azar, ser assaltada na mesma semana em que estava ainda digerindo o fato de ter descoberto o câncer. Teve vontade de rir, havia pensado tanto na morte, e, de repente, tinha a consciência de que poderia perder a vida ali, em um segundo. A cabeça a mil, olhava para o menino a sua frente.
_ Tia, baixe os olhos. Não olhe para mim.
Nem se dera conta de que encarava o rapaz. Também, mania essa que tinha de sempre querer conversar “ olhos nos olhos” com as pessoas.
As perguntas, insistentes.
_Onde está a grana, tia? Diga e nós a deixamos em paz.
_ Quem me dera ter dinheiro, tenho dívidas.
Pensando depois, ria do argumento usado para provar que estava dura.
_ Olhem a geladeira vazia. Se eu tivesse dinheiro ela estaria cheia de alimentos.
De repente, o menino chega esbaforido na sala, ar de triunfo, como se estivesse carregando um troféu. Ela olhou espantada para o par de algemas em suas mãos e mais atônita ficou, quando ouviu:
_ Dona, seu marido é policial, pode ir dizendo onde ele guarda a arma.
Ela olhava as algemas, o menino, não se lembrava delas, nem sabia o que responder. Se ainda tivessem sido usadas durante o sexo, quando ainda era casada, lembraria de bom grado, mas não fazia idéia de onde elas tinham saído.
_ Não me pergunte sobre nada que está naquele quarto. É tudo do meu ex-marido, não entro lá, mas uma coisa sei, ele não é policial.
O mais velho se aproximou e pegando as algemas, viu que eram de brinquedo. Seriam de quando o filho era pequeno e o pai as tinha guardado de lembrança? Não se recordava. Sentiu um alívio. Estranho, confiava mais no assaltante mais velho, que lhe parecia ser o chefe, olhar gelado, poucas palavras, sabia que as decisões quem tomava era ele. Foi pensar nisso e ouviu a voz metálica:
_ E as jóias? Essas sempre existem.
Sua resposta foi imediata. Seguia direitinho o manual do Assalto com final feliz. Foram pegá-las no quarto. Com voz irritada, a menina a chamou para ir lá pois não estava achando as jóias, seguido do comentário:
_ Depois vamos embora, porque senão, daqui a pouco, nós é que vamos ter que deixar dez reais para ela.
Não resistiu, a professora existente nela sempre se manifestaria. Respondeu no ato:
_ Não tenho culpa de não ter dinheiro
A menina, petulante, disse:
_ E acha que nós temos culpa de estar aqui assaltando?
Percebeu que não podia despertar a animosidade deles e continuou:
_ Claro que não. A culpa é do sistema, da sociedade desigual que vivemos. Tenho alunos da periferia e blá blá blá...
Não acreditava naquele diálogo non sense sobre quem era culpado da situação, eles se justificando e ela tentando dar lição de moral.
O mais velho acabou com a brincadeira dizendo, vamos embora. E, virando-se para ela, disse, pode ficar calma, só vamos fazer mais um assaltozinho ali e depois vamos para casa. A voz era de uma ironia atroz. Ficou quieta. O olhar dele caiu sobre a pasta dos exames.
_ O que tem aqui?
_ Meus exames pré – operatórios. Faço cirurgia de mama semana que vem.
Será que minha voz transmitia sinceridade? Ele desistiu de olhar dentro da pasta. O dinheiro poderia estar lá. Virou-se para ela e disse:
_ Sente-se aqui. Amarrou-a com as gravatas do filho. Pensou em uma conversa que havia tido um dia antes sobre bondage, com um amigo, e, novamente teve uma vontade enorme de rir. Como a vida nos prega peças. Quem diria que estaria sendo amarrada em seguida?
O homem a olhou longamente, e deu-lhe um beijo na face dizendo:
_ Não se preocupe, sua cirurgia vai dar certo. Daqui a pouco alguém chega e te desamarra.
Foi nesse momento que suou frio. Foi o único momento que teve realmente medo. Teve a certeza que era um beijo como o dos filmes de máfia, o beijo da morte, e fechou os olhos. Um pensamento cruzou rápido sua mente, bem, vou fazer como quando tiro sangue, se não olho a agulha entrando, não sinto nada. Não vou sentir a bala entrando em mim se ficar com os olhos fechados.
Silêncio.
Lentamente abriu os olhos, escutou, nenhum ruído. Tinham ido embora. Com a mão trêmula conseguiu se desvencilhar das gravatas e correu para a porta. Trancada. Tinham levado a chave, mas a tetra não. Trancou a porta com ela e foi tomar as providências normais de quem foi assaltada.
Continuava viva.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Noturno III


na noite quieta
o silêncio
é açoite 


na cama larga
o lençol
é amarra 

no espaço vazio
 a escuridão
é venda

Sobre o criado
mudo
a solidão espreita.

ilustração: E. Hopper

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A professora



 O bar continuava como da última vez. Não sabia porque a teimosia em ir. Não gostava do calor, não sabia sambar e nem estava a fim de azarar ninguém. Estava sem a mínima vontade de ficar, melhor ir embora.
- Teacher!!!
Olhou para os lados, sabendo que era com ela. O sorriso surgiu fácil quando viu o ex – aluno, os dentes brancos sobressaindo no rosto negro, braços abertos para recebe-la. Faziam a maior festa quando se cruzavam pelas esquinas de São Paulo, sempre nos lugares mais inusitados, durante esses vinte anos. Havia muito carinho entre os dois desde a época de sala de aula.
Felizes pelo reencontro, fizeram as perguntas de sempre. Casou? Casei. E você? Continuo separada. Filhos? Não. E o teu filho? Está bem. Ainda no mesmo emprego? Fazer o que, desemprego assusta. Ainda dando aula? Não, me aposentei. Carnaval? Para valer. Quer sair na minha ala? Só se for na ala da velha guarda e o riso corria solto. Resolveram trocar telefones para não perderem o contato. Ela já estava indo para a mesa das amigas, quando veio a pergunta:
- O que vai me dizer, se ligar?
Virou-se, notando algo diferente. Seria o tom da voz? Que pergunta era aquela? Quando olhou para ele, deu-se conta que estava na frente de um homem que a olhava fixamente, esperando uma resposta. Que resposta ele queria? Ficou sem graça, fez graça, sorriu, respondeu qualquer coisa e foi ao encontro das amigas.
Dez minutos depois, sobre os ombros dos sambistas, viu que ele vinha em sua direção.
- Por que fugiu? Não vai me dar seu telefone?
Era uma voz incisiva, que nada tinha com o tom naturalmente respeitoso usado em suas conversas. Ainda meio espantada com o que acontecia, refugiou-se no riso como se ele fosse a sua muralha da China. Atrás dela sentia-se segura. Segura do que? Pela primeira vez não via a sua frente um aluno, mas um homem. Um belo homem negro, que começava a perturba-la.
- Claro que não! E a caneta? Não trouxe. Gente, quem tem caneta?
Salva pelas amigas, interessadas em saber quem era a nova companhia, apresentou:
- Esse é meu ex – aluno preferido.
Clima de festa, começaram as brincadeiras feitas a respeito dela como professora. Animado, ele descrevia o que os meninos da sua época pensavam da profa. de História. As amigas riam, ela ouvia, e parecia que falavam de alguma outra pessoa que não ela. Como nunca percebera esse desejo adolescente neles? Sabia que havia esse fetiche com professores, ela mesmo tinha sido apaixonada pelo seu professor de Português no ginásio, mas ouvir falar que eles eram loucos por ela a deixava pasma. Ele ia desfiando nomes, e, na cabeça dela, surgiam meninos com quem brincava, com quem brigava, com quem aprendia e ensinava, naquele jogo delicioso de aluno – professor. Sabia que era querida por eles, mas nunca havia prestado muita atenção em sua sedução. Esta, achava que servia para que eles se interessassem por História, só.
Um pensamento doloroso fustigou sua mente: será que tudo na vida dela não tinha sido assim? Ela sem perceber as oportunidades, pairando no mundo, etérea, sem ver a vida passar. Não gostou do pensamento. Expulsou-o da mente.
Sua turma, no bar, não parava muito tempo quieta. Foram voltando ao samba deixando-os a sós novamente.
- Vamos tomar uma cerveja?
Encostados no balcão, seu olhar começou a excitá-la. Ele não dizia nada, apenas a olhava e parecia caminhar no tempo. Sentiu que ele sempre a olhara com aquele desejo velado, que hoje se revelava. Olhava como se a estivesse vendo há vinte anos atrás e não como era agora. Suavemente, passou a mão em sua face e disse:
- Você pode ficar brava, não sei o que vai pensar, mas faz vinte anos que quero te comer. E vou fazer isso. Escreve aí. Não há outro modo de dizer isso a não ser assim, cruamente, eu quero comer você.
Ela ficou sem reação. Muda.
- O que acha? Sabe que se me der o telefone é isso que vou fazer, sabe para que vou te ligar. Quer?
Sorriu, enrolou, deu desculpas. Procurava ganhar tempo para saber como lidar com aquela novidade.
-  Não sei o que acho. Estou meio espantada, vamos sim trocar os telefones para conversamos melhor.
- Não adianta desconversar. Você já sabe o que quero. Eu fico com o teu telefone, te ligo. Agora é minha vez de decidir, as coordenadas ficam por minha conta. Quero ir descobrindo cada pedacinho de tua pele, cada gosto teu. Posso?
O bar agora parecia-lhe mais abafado. Sentiu uma curiosidade misturada com tesão. Como seria se realizasse o fetiche do aluno? O desejo dele era tão transparente, quase palpável. A idéia de ser a professora transformada em fêmea, esquadrinhada pelo aluno, ia tomando uma forma cada vez mais atraente.
- Não sei. Você agora me fez ficar com vontade de saber sobre essa boca, também. Quero um beijo.
Lentamente ela levou seus dedos a sua boca, acariciou os lábios carnudos, a orelha, o pequeno brinco, encostou suavemente os lábios nos dele. Foi um beijo de promessas. Ouviu o sussurro dele:
-  Professora, o telefone. Agora. Tenho que ir embora.
-  Garçom, uma caneta aqui para a gente, por favor.
Anotou o telefone em uma guardanapo.
-  Pronto. Leve, se bem que conversas de tardes de samba não levam a nada, sabemos disto.
-  Não essa. Vou ligar. Está só começando.
A semana passou sem surpresas. O telefone permaneceu mudo.