O bar continuava como da última vez. Não sabia porque a teimosia em ir. Não gostava do calor, não sabia sambar e nem estava a fim de azarar ninguém. Estava sem a mínima vontade de ficar, melhor ir embora.
- Teacher!!!
Olhou para os lados, sabendo que era com ela. O sorriso surgiu fácil quando viu o ex – aluno, os dentes brancos sobressaindo no rosto negro, braços abertos para recebe-la. Faziam a maior festa quando se cruzavam pelas esquinas de São Paulo, sempre nos lugares mais inusitados, durante esses vinte anos. Havia muito carinho entre os dois desde a época de sala de aula.
Felizes pelo reencontro, fizeram as perguntas de sempre. Casou? Casei. E você? Continuo separada. Filhos? Não. E o teu filho? Está bem. Ainda no mesmo emprego? Fazer o que, desemprego assusta. Ainda dando aula? Não, me aposentei. Carnaval? Para valer. Quer sair na minha ala? Só se for na ala da velha guarda e o riso corria solto. Resolveram trocar telefones para não perderem o contato. Ela já estava indo para a mesa das amigas, quando veio a pergunta:
- O que vai me dizer, se ligar?
Virou-se, notando algo diferente. Seria o tom da voz? Que pergunta era aquela? Quando olhou para ele, deu-se conta que estava na frente de um homem que a olhava fixamente, esperando uma resposta. Que resposta ele queria? Ficou sem graça, fez graça, sorriu, respondeu qualquer coisa e foi ao encontro das amigas.
Dez minutos depois, sobre os ombros dos sambistas, viu que ele vinha em sua direção.
- Por que fugiu? Não vai me dar seu telefone?
Era uma voz incisiva, que nada tinha com o tom naturalmente respeitoso usado em suas conversas. Ainda meio espantada com o que acontecia, refugiou-se no riso como se ele fosse a sua muralha da China. Atrás dela sentia-se segura. Segura do que? Pela primeira vez não via a sua frente um aluno, mas um homem. Um belo homem negro, que começava a perturba-la.
- Claro que não! E a caneta? Não trouxe. Gente, quem tem caneta?
Salva pelas amigas, interessadas em saber quem era a nova companhia, apresentou:
- Esse é meu ex – aluno preferido.
Clima de festa, começaram as brincadeiras feitas a respeito dela como professora. Animado, ele descrevia o que os meninos da sua época pensavam da profa. de História. As amigas riam, ela ouvia, e parecia que falavam de alguma outra pessoa que não ela. Como nunca percebera esse desejo adolescente neles? Sabia que havia esse fetiche com professores, ela mesmo tinha sido apaixonada pelo seu professor de Português no ginásio, mas ouvir falar que eles eram loucos por ela a deixava pasma. Ele ia desfiando nomes, e, na cabeça dela, surgiam meninos com quem brincava, com quem brigava, com quem aprendia e ensinava, naquele jogo delicioso de aluno – professor. Sabia que era querida por eles, mas nunca havia prestado muita atenção em sua sedução. Esta, achava que servia para que eles se interessassem por História, só.
Um pensamento doloroso fustigou sua mente: será que tudo na vida dela não tinha sido assim? Ela sem perceber as oportunidades, pairando no mundo, etérea, sem ver a vida passar. Não gostou do pensamento. Expulsou-o da mente.
Sua turma, no bar, não parava muito tempo quieta. Foram voltando ao samba deixando-os a sós novamente.
- Vamos tomar uma cerveja?
Encostados no balcão, seu olhar começou a excitá-la. Ele não dizia nada, apenas a olhava e parecia caminhar no tempo. Sentiu que ele sempre a olhara com aquele desejo velado, que hoje se revelava. Olhava como se a estivesse vendo há vinte anos atrás e não como era agora. Suavemente, passou a mão em sua face e disse:
- Você pode ficar brava, não sei o que vai pensar, mas faz vinte anos que quero te comer. E vou fazer isso. Escreve aí. Não há outro modo de dizer isso a não ser assim, cruamente, eu quero comer você.
Ela ficou sem reação. Muda.
- O que acha? Sabe que se me der o telefone é isso que vou fazer, sabe para que vou te ligar. Quer?
Sorriu, enrolou, deu desculpas. Procurava ganhar tempo para saber como lidar com aquela novidade.
- Não sei o que acho. Estou meio espantada, vamos sim trocar os telefones para conversamos melhor.
- Não adianta desconversar. Você já sabe o que quero. Eu fico com o teu telefone, te ligo. Agora é minha vez de decidir, as coordenadas ficam por minha conta. Quero ir descobrindo cada pedacinho de tua pele, cada gosto teu. Posso?
O bar agora parecia-lhe mais abafado. Sentiu uma curiosidade misturada com tesão. Como seria se realizasse o fetiche do aluno? O desejo dele era tão transparente, quase palpável. A idéia de ser a professora transformada em fêmea, esquadrinhada pelo aluno, ia tomando uma forma cada vez mais atraente.
- Não sei. Você agora me fez ficar com vontade de saber sobre essa boca, também. Quero um beijo.
Lentamente ela levou seus dedos a sua boca, acariciou os lábios carnudos, a orelha, o pequeno brinco, encostou suavemente os lábios nos dele. Foi um beijo de promessas. Ouviu o sussurro dele:
- Professora, o telefone. Agora. Tenho que ir embora.
- Garçom, uma caneta aqui para a gente, por favor.
Anotou o telefone em uma guardanapo.
- Pronto. Leve, se bem que conversas de tardes de samba não levam a nada, sabemos disto.
- Não essa. Vou ligar. Está só começando.
A semana passou sem surpresas. O telefone permaneceu mudo.
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