domingo, 29 de novembro de 2009

Chuva em São Paulo

Chora São Paulo
Lágrimas caem
num pranto convulsivo
pelas ruas molhadas
Desaguam em enxurradas
correndo pelas sarjetas
em direção aos bueiros
O nó da garganta é grande
desfaz-se convulsivo
lamacento
espalhando-se pelo asfalto
até transformar-se em enchente

Chove em São Paulo
O espelho das águas
Reflete a tristeza
da cidade.

O mar e você


O mar me acolheu
Me abarcou
Me prendeu
Me salgou
Salmoura na pele
Sal nas entranhas
Me afundei em salinas
Saltei entre as ondas
Senti a ardência do sal
Pelos poros
Na nuca
No seio e no ventre
Levou meu controle o mar
Meu medo
Meu senso
Meu intento
Tu eras o mar
E eu só te tendo
Tu eras sol-sal
E eu o teu vento...

Perda II

Não sei mais escrever poemas
Que pena
Eram avalanches de palavras
A formar frases de amor

Não sei mais de teus desejos
Às vezes lembro
Eram pingos de luxúria
A escorrer entre nós dois

Não sei mais dos nossos sonhos
Sem destino certo
Vagaram em desatino
Sucumbiram com a dor

Restou-me a expressão sombria
A secura na boca
E o desalento amargo
Dessa solidão vazia

ilustração: E. Hopper

Lembrando uma festa do PT


A festa
A festa prometia ser animada. Alegria pela vitória de seu partido estampada no rosto, foi  encontrar-se com os companheiros, que estariam sorrindo assim como ela. Dito e feito. O clube escolhido, cheio de estrelinhas vermelhas, era pequeno para todos que tinham batalhado para aquela comemoração. Abraços, beijos, palmas, ar de promessas de dias melhores para São Paulo. Muita dança, muita cerveja, muita cantoria noite adentro.
Três horas da manhã, ela já estava entregando os pontos. Sentada à mesa, os olhos perscrutavam os detalhes da decoração partidária até fixarem-se na escada. O que será que haveria nos outros andares? Resolveu investigar para passar o tempo. Ninguém arredaria pé dali, mesmo, antes das cinco horas. Subiu.
Olhou o salão vazio do primeiro andar, alguns sofás, e o piano. Em volta dele dois casais de mais idade. Uma das senhora tocava uma música, aparentemente inaudível, enquanto os outros encostavam o ouvido na madeira dizendo que estava lindo. Aproximou-se e também quis ouvir. O som das teclas conseguia superar o barulho do salão de danças e ela pode ouvir alguns acordes de Villa Lobos. A cena era digna de um filme de Pasolini. Deixou-os sorrindo e subiu mais um lance.
No segundo andar, havia aparelhos de ginástica espalhados. Ficou com vontade de fazer esteira, tentou ligar uma, nada. Desistiu. Como sempre, desistia das coisas à primeira dificuldade.
Mais um lance de escadas e deu de cara com uma porta de vidro: proibida a entrada de menores. Entrou. Era um salão de jogos. Mesas forradas com panos verdes, e, no fundo, o balcão de bar.
- Senhora, não é permitida a entrada de pessoas estranhas aqui.
Nem percebera o garçom chegando. O álcool a deixara mais alegre e ela respondeu:
- Errado, proibida a entrada de menores, e eu posso ser sua tia.
Passou por ele, atraída por vozes que vinham de uma pequena saleta. Olhou curiosa. Ambiente enfumaçado, homens jogando e duas mulheres, de preto, olhando. Pensou, a qualquer momento vai surgir um ator de filme noir, um Al Capone, a polícia. Não, estava no Brasil. Riu sozinha. Pediu um café ao Maître, que confirmou ser ela persona non grata ali, mas, educadamente, colocou a xícara na sua frente.
Enquanto no térreo a festa era da vitória do socialismo - sim, porque seu partido ainda era socialista naquela época - alguns metros acima corria solto o jogo proibido no cassino clandestino.
Pela porta entreaberta via rostos tensos, sérios. Estariam perdendo? Ficariam desesperados depois? Jogo era um vício cruel, que ia corroendo fortunas, casas, desejos, amores.
Terminou o café, agradeceu e voltou ao salão de festas. Queria brincar com algum petista mais xiita sobre o paradoxo das duas situações, só para se divertir com a explicação que seria dada.
O homem estava sentado olhando indiferente para as pessoas. Sentou-se ao lado e começou a falar. Com uma voz pausada, ele comentou:
- Sim, eu estava lá. Venho jogar sempre, já perdi o suficiente por hoje, parei aqui para ver o que acontecia. Estou com vontade de dançar, venha. Sem dar tempo a um sim ou não, pegou-a pelo braço e a conduziu para a pista.
Só mesmo com ela poderia acontecer isso. Bem que os amigos diziam que ela era rainha das trapalhadas.
O jogador a segurava firme, sentia suas mãos pressionando suas costas, enquanto rodavam pelo salão. Súbito, sentiu uma língua em sua orelha, e o corpo dele grudando-se ao seu. Quis se desvencilhar, mas inútil. Ele sorriu, não deixou que ela se afastasse, deu-lhe um beijo. O que acontecia? Sentiu-se uma marionete naquelas mãos desconhecidas, habituadas a embaralhar cartas, embaralhando suas idéias agora. As mãos de repente passaram a percorrer seu corpo, das costas às coxas, levemente, deslizando rapidamente em um jogo de sobe e desce que foi deixando-a deliciosamente excitada. Quis parar, ele não ligava, ignorava os pequenos movimentos que ela fazia e a trazia até si. Os beijos foram se tornando longos, as línguas se misturavam ao ritmo da música. Perdeu a noção do tempo naquela dança de desejos.
O salão esvaziara.
Olhou em direção à mesa dos amigos. Deserta. E agora?
Foi até lá, onde estaria sua bolsa? Alguém a teria levado? Os amigos deviam ter pensado que eles se conheciam e que o companheiro a levaria para casa? Mas e a bolsa? Como iria embora?
O jogador apenas olhava com um sorriso entre divertido e mordaz. Pergunta daqui e dali, nada de bolsa, nada de ninguém.
Lá fora uma chuva gelada, prenunciava um amanhecer cinza em São Paulo. Aceitou a carona oferecida.
Correram até o carro, o que não impediu que molhasse os cabelos, que ele enxugou levemente com uma toalha que estava no banco de trás. Passou as mãos sobre seus seios, desceu para sua barriga, encontrou seu sexo. Ela estremeceu naquele vai e vem de mãos se encontrando, explorando, acariciando, se deliciando. Beijaram-se sem fôlego, arfantes naquela devoração entre-dentes-sobre-línguas-mordiscando-salivando-sem parar.
O dia amanhecia.
- Vamos para minha casa?
- Não. Preciso ir embora. Você me prometeu...
- Sim. Vou te levar em casa.
Fez um caminho longo. Com a voz cansada foi discorrendo sobre o que fazia, o que perdera, sobre seus sonhos desfeitos, sobre sua vida vazia. Os olhos mostravam um tédio imenso. Será que brilhariam com as cartas na mão?
- É aqui.
Ele estacionou, olhou para ela, puxou-a delicadamente e pousou um beijo suave sobre seus lábios.
- Vá, não vale a pena.
Ela ainda disse para ele ligar, mas a voz não saiu convincente. Ele sorriu. Era um sorriso triste. Havia entendido o medo dela pelas cartas. Sabia que não iria jogar no escuro. E ele já não sabia como sair.
Disseram-se adeus.

sábado, 28 de novembro de 2009

Erótica


Quis fazer um poema erótico
Pensei teus dedos como ondas
Suaves a acariciar meus pés
Violentas a quebrar em meus seios
Espumantes a rebentar em meu corpo
E do teu mar não quis mais sair

Quis fazer um poema erótico
Vislumbrei tua boca como poço
A matar minha sede
A molhar meu ventre
Era água pura a que jorrava ali  
E do teu poço não quis mais sair

Quis fazer um poema erótico
Senti teu sexo como rio
Cavando o leito por minhas nádegas
Correndo solto em minhas pernas
Explodindo em mim tal cachoeira
E do teu rio não quis mais sair

Quis fazer um poema erótico
Tornei-te natureza pra me possuires.

ilustração: Picasso

Mais uma vez

Mais uma vez
Não percebi a trama
Que teus dedos seguros
Em busca dos meus
Traçaram

Mais uma vez
Não percebi a teia
Que tuas palavras
Em respostas às minhas
Teceram

Mais uma vez
Não percebi a rede
Que tua sedução
Em volta de mim
Lançou

Mais uma vez
indefesa
em tua malha
estou

Tua voz


Tua voz lembra
o bailado do capim-gordura
ao sabor do vento
Tua voz carrega
o sussurro das folhas
caindo nesse outono lento
Tua voz é clara
chama de lamparina
tremulando noite adentro
Tua voz sorri
na medida exata
do teu pensamento

Tua voz_ sabias?
É da cor dos teus olhos
azul por dentro

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Cheiro de mato

 

tenho o cheiro do mato
quando me tornas tua presa
trago o cheiro do rio
quando me dobras ao meio
és como um bicho do mato
quando me fazes tua fêmea
viro um bicho em cio
quando me cobres inteira

ilustração: Marc Chagall

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Angelus



Acorda-me
Àquela hora
Que é a hora
Mais bela de estar
Em que o badalo
Do sino
Ao tocar
Anuncia
As horas roucas
De cada passo
Do amar


não verterei lágrimas com tua ausência
nem salgarei os sulcos de meu rosto
deixando-as escorrer pela distância

guardarei todas
represadas em lagos
na menina dos meus olhos
e com a doçura da espera
abrirei as comportas
para alegrar tua volta