Entrei distraída na Caixa de Achados & Perdidos. Nunca mais me encontrei.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Crônica da tristeza anunciada
Era uma tristeza fina, aquela
parecia a primeira ruga
imperceptível na face
profunda na descoberta do espelho
tímida como o primeiro pingo de chuva
perdido na secura de dunas do deserto
Tristeza de náufrago aflito
afogando-se em tempestade
sem encontrar o rumo da praia
Uma tristeza ciente de seu poder
pronta a romper o frágil cordão da alegria
construído a duras penas
agora, destroçado sem dó
nos descaminhos do amor.
(por que a lembrança da tartaruga da infância
movendo-se vagamente no meio da folhagem
no fundo do jardim?)
( tela - Magritte)
domingo, 16 de setembro de 2012
Noite de domingo
Que tristeza é essa
de fundo de poço
de botequim de quinta
filosofia barata
que em mim colou?
O que fazer com esse peito
em pranto
se nicotina não basta
alcool não chega
para preencher esse vazio
em que se instalou a dor?
E esse fantasma
assombrando a mente
em que brilham os cacos
desse amor opaco
que em mim restou
Nem mesmo a lua
surgiu à janela
para atenuar o pranto
desse desamor.
(ilustração - Magritte)
de fundo de poço
de botequim de quinta
filosofia barata
que em mim colou?
O que fazer com esse peito
em pranto
se nicotina não basta
alcool não chega
para preencher esse vazio
em que se instalou a dor?
E esse fantasma
assombrando a mente
em que brilham os cacos
desse amor opaco
que em mim restou
Nem mesmo a lua
surgiu à janela
para atenuar o pranto
desse desamor.
(ilustração - Magritte)
Ouvindo Piazzolla
O (re)despertar do amor
dói.
Não posso
acordar sentimentos
deixá-los soltos por aí.
Sem destinatário
são presas fáceis
de palavras vãs
que os destroem sem pudor.
Guardá-los em mim
tão frágeis
Não posso.
Desatinam
entrelaçam-se em nós
na garganta
soltam lavas-lágrimas
no olhar.
No domingo envelhecido
Piazzolla chora comigo
e meu amor (re)nascido
ecoa...
"Quereme así, piantao, piantao, piantao..."
(Ilustração: Munch)
dói.
Não posso
acordar sentimentos
deixá-los soltos por aí.
Sem destinatário
são presas fáceis
de palavras vãs
que os destroem sem pudor.
Guardá-los em mim
tão frágeis
Não posso.
Desatinam
entrelaçam-se em nós
na garganta
soltam lavas-lágrimas
no olhar.
No domingo envelhecido
Piazzolla chora comigo
e meu amor (re)nascido
ecoa...
"Quereme así, piantao, piantao, piantao..."
(Ilustração: Munch)
domingo, 9 de setembro de 2012
O baterista
O bar ainda estava vazio quando chegamos.
No palco, o casal de músicos que gosto. Ela com sua voz melodiosa, ele,dedilhando o violão, sintonia perfeita.
O baterista, não conheço. Observo curiosa.
A expressão do homem é dura. Algumas rugas na face, nenhum sorriso nos lábios, seus músculos faciais estão imóveis. Lembra os músicos experientes da noite, acostumados com o burburinho, meio indiferentes à plateia. Deve ser dos bons, penso.
Volto-me para suas mãos. Por que me sinto fascinada por elas? São imãs, atraindo meu olhar. Mãos de músicos parecem independentes do corpo, movimentam-se por seus instrumentos tirando deles a essência do som. Passeiam pela melodia da mesma forma como devem passear à beira-mar, sentindo a brisa no rosto. Enfeitiçam-me.
As do baterista desconhecido guiam as baquetas, seguram o ritmo, ganham força, incendeiam o som. Pouco a pouco, suavemente, acompanham as notas, acariciam as caixas, acordam os pratos, murmuram uma canção de amor.
Por alguns momentos, vislumbro apenas o profissional da noite, a facilidade do ir e vir dos movimentos, quase mecânicos, e um leve ar de tédio na face Em que pensará o baterista, enquanto suas mãos tocam e vão contando das noites, dos bares, dos palcos e bailes, marcando o compasso da dança de tantos encontros e desencontros da vida?
Seu olhar é soturno, gelado. Vaga pelo espaço e se detem no meu. Perscuta, inquire, aprofunda e me invade. Faz um contraponto silencioso à bateria que domina.
Há algo inquietante nele, algo que me prende e afasta. Fecho os olhos e o som das baquetas é igual ao pulsar das minhas veias. Intenso. Deixo escorrer a música por meu corpo e, por um instante, fujo para o infinito, único lugar em que a música se torna extensão daquele olhar. Vivo aquele momento antes do retorno à realidade, à conversa com os amigos, às brincadeiras, e ao sorriso solto aos conhecidos.
Peço uma bebida ao garçom e viro uma mera frequentadora do bar.
Ao longe, ouço um baterista desconhecido a me tocar.
.
O bar ainda estava vazio quando chegamos.
No palco, o casal de músicos que gosto. Ela com sua voz melodiosa, ele,dedilhando o violão, sintonia perfeita.
O baterista, não conheço. Observo curiosa.
A expressão do homem é dura. Algumas rugas na face, nenhum sorriso nos lábios, seus músculos faciais estão imóveis. Lembra os músicos experientes da noite, acostumados com o burburinho, meio indiferentes à plateia. Deve ser dos bons, penso.
Volto-me para suas mãos. Por que me sinto fascinada por elas? São imãs, atraindo meu olhar. Mãos de músicos parecem independentes do corpo, movimentam-se por seus instrumentos tirando deles a essência do som. Passeiam pela melodia da mesma forma como devem passear à beira-mar, sentindo a brisa no rosto. Enfeitiçam-me.
As do baterista desconhecido guiam as baquetas, seguram o ritmo, ganham força, incendeiam o som. Pouco a pouco, suavemente, acompanham as notas, acariciam as caixas, acordam os pratos, murmuram uma canção de amor.
Por alguns momentos, vislumbro apenas o profissional da noite, a facilidade do ir e vir dos movimentos, quase mecânicos, e um leve ar de tédio na face Em que pensará o baterista, enquanto suas mãos tocam e vão contando das noites, dos bares, dos palcos e bailes, marcando o compasso da dança de tantos encontros e desencontros da vida?
Seu olhar é soturno, gelado. Vaga pelo espaço e se detem no meu. Perscuta, inquire, aprofunda e me invade. Faz um contraponto silencioso à bateria que domina.
Há algo inquietante nele, algo que me prende e afasta. Fecho os olhos e o som das baquetas é igual ao pulsar das minhas veias. Intenso. Deixo escorrer a música por meu corpo e, por um instante, fujo para o infinito, único lugar em que a música se torna extensão daquele olhar. Vivo aquele momento antes do retorno à realidade, à conversa com os amigos, às brincadeiras, e ao sorriso solto aos conhecidos.
Peço uma bebida ao garçom e viro uma mera frequentadora do bar.
Ao longe, ouço um baterista desconhecido a me tocar.
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quarta-feira, 11 de julho de 2012
Insônia
descerra os olhos na noite
e a falta da lua
projeta em sua face
o breu
apenas o silêncio gelado
da ausência
não há pássaros noturnos
gatos em cio
ou cães assustados
na rua
Ao longe
cristais de gelo nas flores anunciam
a melancolia do amanhecer
(Tela - Munch)
e a falta da lua
projeta em sua face
o breu
apenas o silêncio gelado
da ausência
não há pássaros noturnos
gatos em cio
ou cães assustados
na rua
Ao longe
cristais de gelo nas flores anunciam
a melancolia do amanhecer
(Tela - Munch)
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Sou mulher de beiradas
Pânico senti
ao fincar os pés
no ponto central da América do Sul
Mas não fico ao longe
quero estar ali
no limite
entre o entrar e o sair
no horizonte
entre o mar e o céu
no lusco-fusco
entre o dia e a noite
no meio fio
entre o rebanho
que segue a estrada
e a rês desgarrada
que se perde nas trilhas
É meu lugar
o exato ponto
da linha tênue
que separa o racional do infinito.
Pânico senti
ao fincar os pés
no ponto central da América do Sul
Mas não fico ao longe
quero estar ali
no limite
entre o entrar e o sair
no horizonte
entre o mar e o céu
no lusco-fusco
entre o dia e a noite
no meio fio
entre o rebanho
que segue a estrada
e a rês desgarrada
que se perde nas trilhas
É meu lugar
o exato ponto
da linha tênue
que separa o racional do infinito.
terça-feira, 1 de maio de 2012
as nuvens da noite
sob o olhar da lua
nuvens brancas
tal garças leves
passeiam
pelo céu noturno
tal pássaros alegres
voam rápidas
pelo horizonte ao fundo
da janela do quarto
acompanho o compasso
da metamorfose celeste
um chumaço de algodão branco...
uma cortina de fumaça...
um novelo de lã alvo...
distrai-me a alma
o movimento das nuvens
e distraída
quase nuvem
em meu universo
existencial
meu ollhar brilha
ao cruzar docemente
com o olhar da lua...
nuvens brancastal garças leves
passeiam
pelo céu noturno
tal pássaros alegres
voam rápidas
pelo horizonte ao fundo
da janela do quarto
acompanho o compasso
da metamorfose celeste
um chumaço de algodão branco...
uma cortina de fumaça...
um novelo de lã alvo...
distrai-me a alma
o movimento das nuvens
e distraída
quase nuvem
em meu universo
existencial
meu ollhar brilha
ao cruzar docemente
com o olhar da lua...
terça-feira, 24 de abril de 2012
de desertos...
Em meu deserto afetivo
há um vulto distante
que mais parece miragem
ao sol a pino do dia
ou em noites de mil estrelas
com o luar a espiar
Em meu deserto afetivo
tempestades de areia
enfrento
sigo por dunas profundas
desfaleço
pés descalços dormentes
levanto
sentindo no rosto o talho
que o vento cortante me traz
Em meu deserto afetivo
sempre a figura de um homem
me força a andar
acena tranquilo ao longe
com seu oásis de águas claras
e palmeiras verdes
onde me aguardará.
há um vulto distante
que mais parece miragem
ao sol a pino do dia
ou em noites de mil estrelas
com o luar a espiar
Em meu deserto afetivo
tempestades de areia
enfrento
sigo por dunas profundas
desfaleço
pés descalços dormentes
levanto
sentindo no rosto o talho
que o vento cortante me traz
Em meu deserto afetivo
sempre a figura de um homem
me força a andar
acena tranquilo ao longe
com seu oásis de águas claras
e palmeiras verdes
onde me aguardará.
domingo, 15 de abril de 2012
Diário de Leituras - a origem
Lendo sobre a exposição de Jorge Amado no Museu da Língua Portuguesa, fiquei pensando a importância que o escritor baiano teve na minha adolescência, em uma época sem televisão, na pequena cidade do interior paulista, em que o tédio das noites tranquilas se fazia presente e era substituído pelas viagens que fazia lendo seus livros.
E pensando nisso, é nítido o papel que teve o Jeromão em minha vida. Jeromão era professor de português, responsável pela formação da biblioteca do ginásio e por me abrir as portas da literatura brasileira.
Até então, meus hábitos de leitura, com exceção de Monteiro Lobato, cujos livros papai já comprara toda a coleção para os filhos lerem, minha atenção era voltada para os livros de literatura estrangeira, capa preta, da biblioteca do Grêmio, a velha biblioteca do clube, mobiliada de forma austera, como devia ser uma biblioteca, as estantes altas, cheias de livros que eu ia escolhendo meio aleatoriamente, de autores ingleses, franceses e russos. Livros pesados, que me despertavam uma certa angústia ao ler, Sumerset Maugham, Flaubert, Tennesse Williams, ou acordavam a curiosidade da investigação de crimes com Agatha Christie ou as aventuras de Sherlock Holmes.É dessa época também a minha falta de interesse pela literatura russa. Talvez o fato de ser muito jovem para adentrar no mundo de Dostoiewski me tenha criado uma resistência nunca rompida, infelizmente, pelos grandes autores russos.
Já a biblioteca do ginásio era clara, cheia de luz e ver aqueles livros chegando, as prateleiras lotando, era algo como uma nova luz a meu olhar voraz de leitora. Passei a povoar a mente com o novo universo que descobria passo a passo.
Fui apresentada a Graciliano Ramos, Jose Lins do Rego e Jorge Amado. Eram meus preferidos. Lia, lia, lia... Vidas Secas, Angústia, Menino de Engenho, Jubiabá, Suor, Terras do sem fim, tudo me encantava naquela descoberta de um Brasil novo, aprendendo ali a gostar do povo brasileiro, sementes lançadas sem eu saber, germinando na minha cabeça até florescerem em pensamentos contrários a poderosos e uma noção vaga de que deveria lutar por um mundo menos desigual. Talvez, Jorge Amado tenha sido, mais do que os outros, o responsável também pela minha parte festeira, alegre, cantante.
Só alguns anos depois, já longe de Igarapava, percorreria outros caminhos da literatura, mas o tripé, a base, o estímulo a leitura foi formado ali: casa -clube - ginásio.
E pensando nisso, é nítido o papel que teve o Jeromão em minha vida. Jeromão era professor de português, responsável pela formação da biblioteca do ginásio e por me abrir as portas da literatura brasileira.
Até então, meus hábitos de leitura, com exceção de Monteiro Lobato, cujos livros papai já comprara toda a coleção para os filhos lerem, minha atenção era voltada para os livros de literatura estrangeira, capa preta, da biblioteca do Grêmio, a velha biblioteca do clube, mobiliada de forma austera, como devia ser uma biblioteca, as estantes altas, cheias de livros que eu ia escolhendo meio aleatoriamente, de autores ingleses, franceses e russos. Livros pesados, que me despertavam uma certa angústia ao ler, Sumerset Maugham, Flaubert, Tennesse Williams, ou acordavam a curiosidade da investigação de crimes com Agatha Christie ou as aventuras de Sherlock Holmes.É dessa época também a minha falta de interesse pela literatura russa. Talvez o fato de ser muito jovem para adentrar no mundo de Dostoiewski me tenha criado uma resistência nunca rompida, infelizmente, pelos grandes autores russos.
Já a biblioteca do ginásio era clara, cheia de luz e ver aqueles livros chegando, as prateleiras lotando, era algo como uma nova luz a meu olhar voraz de leitora. Passei a povoar a mente com o novo universo que descobria passo a passo.
Fui apresentada a Graciliano Ramos, Jose Lins do Rego e Jorge Amado. Eram meus preferidos. Lia, lia, lia... Vidas Secas, Angústia, Menino de Engenho, Jubiabá, Suor, Terras do sem fim, tudo me encantava naquela descoberta de um Brasil novo, aprendendo ali a gostar do povo brasileiro, sementes lançadas sem eu saber, germinando na minha cabeça até florescerem em pensamentos contrários a poderosos e uma noção vaga de que deveria lutar por um mundo menos desigual. Talvez, Jorge Amado tenha sido, mais do que os outros, o responsável também pela minha parte festeira, alegre, cantante.
Só alguns anos depois, já longe de Igarapava, percorreria outros caminhos da literatura, mas o tripé, a base, o estímulo a leitura foi formado ali: casa -clube - ginásio.
sábado, 7 de abril de 2012
A vida vem em ondas
Ondas de preconceito, intolerância, segregação, hordas de imbecis em meio à diversidade.
Ondas de carros, motos, pedestres, a morte trafega solta no trânsito da cidade.
Ondas de revoltas, ocupações, gritos de excluídos num mundo de explorados.
Ondas de calor, poluentes, devastação sombria do planeta terra ainda habitável.
Ondas de revoltas, ocupações, gritos de excluídos num mundo de explorados.
Ondas de calor, poluentes, devastação sombria do planeta terra ainda habitável.
Ondas de tecnologia, sistemas, redes sociais e visibilidade.
Ondas de (des)informação, propaganda, manipulação de mídias em falta com a realidade.
Ondas de ações, capital, crises, bancos, lucros, reina soberano o mercado.
Ondas de terror, guerras, repressão, extremistas sem lei em nome de Deus e do Estado.Ondas de um mundo global, sem muito sentido, tsunamis sem piedade
E pensar que eu acreditava serem as ondas
Apenas as doces ondas verdes do mar...
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