Quando criança
acordava alegre de madrugada
e pensava que banda à janela
com seus hinos e clarins
anunciava ao mundo
o dia de meus anos
Ingênua
amanhecia feliz
Hoje
acordo devagar
não há banda nem hinos
apenas o silêncio da manhã
conta-me que o tempo passou
a ingenuidade se foi
a infância acabou
mas será que esse pássaro lá fora
está cantando para mim?
Entrei distraída na Caixa de Achados & Perdidos. Nunca mais me encontrei.
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Eros e Psiquê
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Crônica da tristeza anunciada
Era uma tristeza fina, aquela
parecia a primeira ruga
imperceptível na face
profunda na descoberta do espelho
tímida como o primeiro pingo de chuva
perdido na secura de dunas do deserto
Tristeza de náufrago aflito
afogando-se em tempestade
sem encontrar o rumo da praia
Uma tristeza ciente de seu poder
pronta a romper o frágil cordão da alegria
construído a duras penas
agora, destroçado sem dó
nos descaminhos do amor.
(por que a lembrança da tartaruga da infância
movendo-se vagamente no meio da folhagem
no fundo do jardim?)
( tela - Magritte)
domingo, 16 de setembro de 2012
Noite de domingo
Que tristeza é essa
de fundo de poço
de botequim de quinta
filosofia barata
que em mim colou?
O que fazer com esse peito
em pranto
se nicotina não basta
alcool não chega
para preencher esse vazio
em que se instalou a dor?
E esse fantasma
assombrando a mente
em que brilham os cacos
desse amor opaco
que em mim restou
Nem mesmo a lua
surgiu à janela
para atenuar o pranto
desse desamor.
(ilustração - Magritte)
de fundo de poço
de botequim de quinta
filosofia barata
que em mim colou?
O que fazer com esse peito
em pranto
se nicotina não basta
alcool não chega
para preencher esse vazio
em que se instalou a dor?
E esse fantasma
assombrando a mente
em que brilham os cacos
desse amor opaco
que em mim restou
Nem mesmo a lua
surgiu à janela
para atenuar o pranto
desse desamor.
(ilustração - Magritte)
Ouvindo Piazzolla
O (re)despertar do amor
dói.
Não posso
acordar sentimentos
deixá-los soltos por aí.
Sem destinatário
são presas fáceis
de palavras vãs
que os destroem sem pudor.
Guardá-los em mim
tão frágeis
Não posso.
Desatinam
entrelaçam-se em nós
na garganta
soltam lavas-lágrimas
no olhar.
No domingo envelhecido
Piazzolla chora comigo
e meu amor (re)nascido
ecoa...
"Quereme así, piantao, piantao, piantao..."
(Ilustração: Munch)
dói.
Não posso
acordar sentimentos
deixá-los soltos por aí.
Sem destinatário
são presas fáceis
de palavras vãs
que os destroem sem pudor.
Guardá-los em mim
tão frágeis
Não posso.
Desatinam
entrelaçam-se em nós
na garganta
soltam lavas-lágrimas
no olhar.
No domingo envelhecido
Piazzolla chora comigo
e meu amor (re)nascido
ecoa...
"Quereme así, piantao, piantao, piantao..."
(Ilustração: Munch)
domingo, 9 de setembro de 2012
O baterista
O bar ainda estava vazio quando chegamos.
No palco, o casal de músicos que gosto. Ela com sua voz melodiosa, ele,dedilhando o violão, sintonia perfeita.
O baterista, não conheço. Observo curiosa.
A expressão do homem é dura. Algumas rugas na face, nenhum sorriso nos lábios, seus músculos faciais estão imóveis. Lembra os músicos experientes da noite, acostumados com o burburinho, meio indiferentes à plateia. Deve ser dos bons, penso.
Volto-me para suas mãos. Por que me sinto fascinada por elas? São imãs, atraindo meu olhar. Mãos de músicos parecem independentes do corpo, movimentam-se por seus instrumentos tirando deles a essência do som. Passeiam pela melodia da mesma forma como devem passear à beira-mar, sentindo a brisa no rosto. Enfeitiçam-me.
As do baterista desconhecido guiam as baquetas, seguram o ritmo, ganham força, incendeiam o som. Pouco a pouco, suavemente, acompanham as notas, acariciam as caixas, acordam os pratos, murmuram uma canção de amor.
Por alguns momentos, vislumbro apenas o profissional da noite, a facilidade do ir e vir dos movimentos, quase mecânicos, e um leve ar de tédio na face Em que pensará o baterista, enquanto suas mãos tocam e vão contando das noites, dos bares, dos palcos e bailes, marcando o compasso da dança de tantos encontros e desencontros da vida?
Seu olhar é soturno, gelado. Vaga pelo espaço e se detem no meu. Perscuta, inquire, aprofunda e me invade. Faz um contraponto silencioso à bateria que domina.
Há algo inquietante nele, algo que me prende e afasta. Fecho os olhos e o som das baquetas é igual ao pulsar das minhas veias. Intenso. Deixo escorrer a música por meu corpo e, por um instante, fujo para o infinito, único lugar em que a música se torna extensão daquele olhar. Vivo aquele momento antes do retorno à realidade, à conversa com os amigos, às brincadeiras, e ao sorriso solto aos conhecidos.
Peço uma bebida ao garçom e viro uma mera frequentadora do bar.
Ao longe, ouço um baterista desconhecido a me tocar.
.
O bar ainda estava vazio quando chegamos.
No palco, o casal de músicos que gosto. Ela com sua voz melodiosa, ele,dedilhando o violão, sintonia perfeita.
O baterista, não conheço. Observo curiosa.
A expressão do homem é dura. Algumas rugas na face, nenhum sorriso nos lábios, seus músculos faciais estão imóveis. Lembra os músicos experientes da noite, acostumados com o burburinho, meio indiferentes à plateia. Deve ser dos bons, penso.
Volto-me para suas mãos. Por que me sinto fascinada por elas? São imãs, atraindo meu olhar. Mãos de músicos parecem independentes do corpo, movimentam-se por seus instrumentos tirando deles a essência do som. Passeiam pela melodia da mesma forma como devem passear à beira-mar, sentindo a brisa no rosto. Enfeitiçam-me.
As do baterista desconhecido guiam as baquetas, seguram o ritmo, ganham força, incendeiam o som. Pouco a pouco, suavemente, acompanham as notas, acariciam as caixas, acordam os pratos, murmuram uma canção de amor.
Por alguns momentos, vislumbro apenas o profissional da noite, a facilidade do ir e vir dos movimentos, quase mecânicos, e um leve ar de tédio na face Em que pensará o baterista, enquanto suas mãos tocam e vão contando das noites, dos bares, dos palcos e bailes, marcando o compasso da dança de tantos encontros e desencontros da vida?
Seu olhar é soturno, gelado. Vaga pelo espaço e se detem no meu. Perscuta, inquire, aprofunda e me invade. Faz um contraponto silencioso à bateria que domina.
Há algo inquietante nele, algo que me prende e afasta. Fecho os olhos e o som das baquetas é igual ao pulsar das minhas veias. Intenso. Deixo escorrer a música por meu corpo e, por um instante, fujo para o infinito, único lugar em que a música se torna extensão daquele olhar. Vivo aquele momento antes do retorno à realidade, à conversa com os amigos, às brincadeiras, e ao sorriso solto aos conhecidos.
Peço uma bebida ao garçom e viro uma mera frequentadora do bar.
Ao longe, ouço um baterista desconhecido a me tocar.
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quarta-feira, 11 de julho de 2012
Insônia
descerra os olhos na noite
e a falta da lua
projeta em sua face
o breu
apenas o silêncio gelado
da ausência
não há pássaros noturnos
gatos em cio
ou cães assustados
na rua
Ao longe
cristais de gelo nas flores anunciam
a melancolia do amanhecer
(Tela - Munch)
e a falta da lua
projeta em sua face
o breu
apenas o silêncio gelado
da ausência
não há pássaros noturnos
gatos em cio
ou cães assustados
na rua
Ao longe
cristais de gelo nas flores anunciam
a melancolia do amanhecer
(Tela - Munch)
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Sou mulher de beiradas
Pânico senti
ao fincar os pés
no ponto central da América do Sul
Mas não fico ao longe
quero estar ali
no limite
entre o entrar e o sair
no horizonte
entre o mar e o céu
no lusco-fusco
entre o dia e a noite
no meio fio
entre o rebanho
que segue a estrada
e a rês desgarrada
que se perde nas trilhas
É meu lugar
o exato ponto
da linha tênue
que separa o racional do infinito.
Pânico senti
ao fincar os pés
no ponto central da América do Sul
Mas não fico ao longe
quero estar ali
no limite
entre o entrar e o sair
no horizonte
entre o mar e o céu
no lusco-fusco
entre o dia e a noite
no meio fio
entre o rebanho
que segue a estrada
e a rês desgarrada
que se perde nas trilhas
É meu lugar
o exato ponto
da linha tênue
que separa o racional do infinito.
terça-feira, 1 de maio de 2012
as nuvens da noite
sob o olhar da lua
nuvens brancas
tal garças leves
passeiam
pelo céu noturno
tal pássaros alegres
voam rápidas
pelo horizonte ao fundo
da janela do quarto
acompanho o compasso
da metamorfose celeste
um chumaço de algodão branco...
uma cortina de fumaça...
um novelo de lã alvo...
distrai-me a alma
o movimento das nuvens
e distraída
quase nuvem
em meu universo
existencial
meu ollhar brilha
ao cruzar docemente
com o olhar da lua...
nuvens brancastal garças leves
passeiam
pelo céu noturno
tal pássaros alegres
voam rápidas
pelo horizonte ao fundo
da janela do quarto
acompanho o compasso
da metamorfose celeste
um chumaço de algodão branco...
uma cortina de fumaça...
um novelo de lã alvo...
distrai-me a alma
o movimento das nuvens
e distraída
quase nuvem
em meu universo
existencial
meu ollhar brilha
ao cruzar docemente
com o olhar da lua...
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